Edição Jan-Fev 2025
Como Eu Faço Qualidade: Controle Microbiológico da Água Reagente Segundo a Farmacopeia Brasileira Edição 2024
A qualidade da Água Reagente é tradicionalmente aferida segundo o documento CLSI GP40. Contudo, diante da recente atualização do documento Farmacopeia Brasileira (FB), a Água Reagente (Purificada) obtida a partir de água potável submetida a tratamentos, ganhou parâmetros de controle microbiológico que já estão sendo exigidos por algumas vigilâncias sanitárias (VISA). “O laudo deve constar (sic) o determinado na Farmacopeia Brasileira: contagem de número total de bactérias heterotróficas, ausência de Pseudomonas e coliformes”.
O controle da qualidade da água não se limita aos ensaios físico-químicos (como Condutividade e Carbono Orgânico Total), mas exige uma vigilância rigorosa dos Testes de Segurança (Capítulo 5.5.3.6 da FB) para prevenir o crescimento microbiano e a contaminação ao longo do sistema.
1. Requisitos de Pureza Biológica para Água Purificada
A Farmacopeia Brasileira estabelece limites específicos para a Água Purificada, garantindo que ela cumpra os testes biológicos requeridos:
1. Contagem do número total de bactérias heterotróficas (5.5.3.6.1): O limite máximo aceitável é de 100 UFC/mL.
2. Pesquisa de Coliformes Totais e Fecais (5.5.3.6.2): Devem estar ausentes. 3. Pesquisa de Pseudomonas aeruginosa (5.5.3.6.3): Deve estar ausente. Vejamos a comparação entre o CLSI e a FB:
2. A etapa crítica: Amostragem e Armazenamento
A amostragem é uma fase crucial, pois a amostra retirada deve refletir fielmente o desempenho do sistema de produção e distribuição de água. Uma amostragem inadequada pode levar a avaliações errôneas da qualidade.
O Plano de Amostragem: O plano deve prever a coleta de amostras desde o local de geração da água até os pontos de uso, já que a qualidade pode variar significativamente
ao longo do sistema. A coleta nos pontos de uso deve mimetizar as práticas de rotina, incluindo a purga da válvula e o uso de mangueiras.
Inicialmente, durante a validação do sistema, um plano de amostragem de curta duração (por exemplo, duas a quatro semanas) e alta frequência é utilizado para caracterizar o desempenho. Posteriormente, o plano de rotina deve ser periodicamente reavaliado com base nos dados disponíveis, garantindo que a frequência e os locais de amostragem sejam racionais e justifiquem a liberação da água.
Coleta e Manuseio: As amostras devem ser coletadas em recipientes estéreis (vidro borossilicato ou bolsas plásticas). É fundamental que agentes desinfetantes (como cloro) sejam neutralizados antes da realização dos testes para permitir a recuperação adequada dos microrganismos. A solução de tiossulfato de sódio a 3% é um agente neutralizante comumente empregado.
Condições de Armazenamento: Para manter as características microbiológicas, os testes devem ser iniciados em até duas horas após a coleta. Se isso não for possível, a amostra deve ser refrigerada na faixa de 2 °C a 8 °C por, no máximo, 12 horas. Laboratórios terceirizados podem realizar o ensaio em até 24 horas, desde que a amostra permaneça refrigerada.
3. Métodos Microbiológicos em Detalhe
A Farmacopeia Brasileira oferece métodos opcionais para a execução dos testes, cuja escolha deve ser validada e baseada em estudos comparativos, utilizando o microbioma nativo do sistema de purificação em análise.
3.1 Contagem do Número Total de Bactérias Heterotróficas (CHT)
O método selecionado deve ser adequado para a recuperação de microrganismos específicos encontrados em sistemas de água.
Meios de Cultura: Existem meios de alta concentração de nutrientes (copiotróficos), como Ágar Caseína-Soja (TSA), Ágar PCA (Plate Count Agar) ou Ágar m-HPC, e meios de baixa concentração de nutrientes (oligotróficos), como o Ágar R2A. O Ágar R2A é especialmente indicado para a recuperação de bactérias oligotróficas.
Condições de Incubação: A temperatura e o tempo são aspectos críticos.
• Temperaturas baixas (20 °C a 25 °C ou 25 °C a 30 °C) por períodos mais longos (pelo menos quatro dias) geralmente resultam em recuperações mais elevadas.
• Meios de baixa concentração de nutrientes (R2A) requerem incubação mais longa, pelo menos cinco dias.
Procedimento para Água Purificada: O teste pode ser realizado por Profundidade em Placa (utilizando 1,0 mL da amostra) ou por Filtração em Membrana (utilizando 100,0 mL da amostra). Para a filtração, utiliza-se membrana estéril de 47 mm de diâmetro e 0,45 µm de porosidade, devendo ser lavada após a filtração da amostra.
3.2 Pesquisa de Coliformes Totais e Fecais
O grupo coliforme é definido como anaeróbios facultativos, bastonetes Gram negativos, não formadores de esporos, que fermentam a lactose com formação de gás e ácido, quando incubados por 48 horas a 35 ºC.
Método de Fermentação em Tubos Múltiplos (NMP):
1. Fase Presuntiva: Utiliza-se Caldo Lauril Triptose. A formação de turvação ou produção de gás nos tubos invertidos (Durham) dentro de 48 ± 3 horas constitui uma reação presuntiva positiva.
2. Fase Confirmatória (Coliformes Totais): Tubos positivos da fase presuntiva são inoculados em Caldo Lactose Bile Verde Brilhante. Crescimento e formação de gás em 48 ± 3 horas a (35 ± 0,5) ºC confirmam a presença de coliformes totais.
3. Fase Completa (Coliformes Fecais/ E. coli): Culturas positivas do Caldo Bile Lactose Verde Brilhante são transferidas para Caldo EC ou EC-MUG e incubadas a (44 ± 0,2) ºC. Crescimento e produção de gás neste meio indicam a presença de coliformes fecais ou E. coli.
Métodos Alternativos: Podem ser utilizados o método de Filtração em Membrana (com meios como MacConkey, endo C ou eosina azul de metileno) ou métodos Cromogênicos, baseados em substratos enzimáticos (como ONPG e MUG) para detecção simultânea e em menor tempo.
3.3 Pesquisa de Pseudomonas aeruginosa
Este microrganismo deve estar ausente na Água Purificada.
Procedimento: Utiliza-se o Método de Filtração por Membrana, filtrando-se 200 mL da amostra. A membrana é transferida para o Ágar M-Pa-C.
Incubação e Identificação: As placas são incubadas a (41,5 ± 0,5) °C por 72 horas. As colônias típicas de P. aeruginosa são contadas (idealmente, de 20 a 80 colônias por filtro) e caracterizadas por seu tamanho (0,8 mm a 2,2 mm), formato plano, borda clara e centro de acastanhado a verde escuro. A confirmação final deve ser feita por meio de testes bioquímicos adequados.
Conclusão
Recomendamos aos laboratórios clínicos que revisitem seus processos e procedimentos de validação e de controle da qualidade da água reagente, adequando-os também à Farmacopeia Brasileira.
Referências
1- CLSI GP40CLSI GP40 - Preparations and Testing of Reagent Water in the Medical Laboratory. Date of Publication December 10, 2024
2- Farmacopeia Brasileira, 7a. Edição aprovada pela ANVISA RDC 940/2024

