Edição Mar-Abr 2026
ARTIGO: Diferenças conceituais entre segurança do paciente e cuidado centrado na pessoa
DIFERENÇAS CONCEITUAIS ENTRE SEGURANÇA DO PACIENTE E CUIDADO CENTRADO NA PESSOA
Autoras: Viviani de Figueiredo Pires; Maria Clara da Silva Barata; Claudia Maria Meira Dias.
O conceito de cuidado centrado na pessoa vem ganhando crescente evidência no âmbito da saúde, sendo frequentemente apresentado como uma evolução da segurança do paciente. Nesse contexto, o relatório Crossing the Quality Chasm: A New Health System for the 21st Century, publicado pelo Institute of Medicine (IOM) em 2001, destaca-se como um marco conceitual ao propor uma abordagem ampliada do sistema de saúde, fundamentada em seis dimensões da qualidade: segurança, efetividade, cuidado centrado no paciente, oportunidade, eficiência e equidade.
Dentre essas dimensões, a segurança do paciente e o cuidado centrado na pessoa assumem papel central nas políticas de qualidade e acreditação em saúde. Embora frequentemente tratadas de forma integrada, tais diretrizes apresentam pressupostos conceituais distintos, o que torna necessária sua análise comparativa para adequada aplicação nos serviços de saúde.
O cuidado centrado no paciente engloba as qualidades de empatia, compaixão e capacidade de resposta às necessidades, valores e preferências expressas por cada indivíduo. Aplica-se a pessoas de todas as idades e pode ser desenvolvido em diferentes níveis de atenção à saúde, sendo fundamentado em parcerias mutuamente benéficas entre profissionais de saúde, pacientes e familiares (ANVISA, 2017). Essa abordagem pressupõe o respeito à singularidade de cada indivíduo, incluindo suas crenças, valores, origens culturais e contextos sociais, incorporando tais aspectos no planejamento e na execução do cuidado. Nesse sentido, o cuidado centrado no paciente deve assegurar que a assistência seja prestada de forma equitativa, sem variações decorrentes de características pessoais, como identidade de gênero, etnia, condição socioeconômica ou localização geográfica, reconhecendo e respondendo às diversas necessidades de uma população heterogênea.
A segurança do paciente foi inicialmente definida como a redução do risco de danos desnecessários associados ao cuidado em saúde a um nível mínimo aceitável, conforme estabelecido no relatório To Err Is Human: Building a Safer Health System (IOM, 1999). Essa publicação evidenciou a elevada incidência de eventos adversos evitáveis decorrentes de falhas nos sistemas assistenciais, consolidando a compreensão de que os erros em saúde são, majoritariamente, consequência de falhas sistêmicas, e não exclusivamente de falhas individuais.
Dessa forma, as estratégias voltadas à segurança do paciente priorizam o redesenho de processos, a padronização de práticas, a implementação de protocolos assistenciais, a gestão de riscos e o fortalecimento de uma cultura organizacional de segurança, caracterizada pela aprendizagem contínua e pela não punição. Trata-se, portanto, de uma abordagem com enfoque predominantemente técnico, organizacional e processual.
Por sua vez, o cuidado centrado na pessoa é definido como a assistência que respeita e responde às preferências, necessidades e valores individuais, assegurando que esses elementos orientem todas as decisões clínicas (IOM, 2001). Essa diretriz desloca o foco do cuidado exclusivamente técnico para uma abordagem que incorpora a experiência do paciente como elemento central da qualidade assistencial.
De acordo com Gerteis et al. (1993), o cuidado centrado no paciente envolve dimensões como respeito aos valores e preferências, comunicação efetiva, suporte emocional, envolvimento da família e cuidadores, coordenação do cuidado e garantia de conforto físico e psicológico. Nesse modelo, o paciente é reconhecido como sujeito ativo, participante do processo decisório e corresponsável pelo cuidado.
Essa mudança representa um novo paradigma, caracterizado pelo empoderamento do paciente, pela tomada de decisão compartilhada e pela valorização da experiência do cuidado, para além dos desfechos clínicos. Nessa perspectiva, a qualidade em saúde passa a ser definida não apenas por critérios técnicos, mas também pela experiência vivida do paciente.
Corroborando essa abordagem, Abid et al. (2024) destacam que o cuidado centrado na pessoa deve ser compreendido como um modelo ampliado de atenção, que integra valores individuais e experiência humana como elementos estruturantes da qualidade em saúde.
Diferentemente da segurança do paciente, o cuidado centrado na pessoa enfatiza aspectos relacionais, comunicacionais e éticos, buscando alinhar as práticas assistenciais ao contexto social, cultural e emocional do indivíduo.
O IOM ressalta que as dimensões da qualidade são complementares e interdependentes, podendo, em determinadas situações, gerar tensões que devem ser equilibradas na prática assistencial. Assim, um cuidado não pode ser considerado centrado na pessoa se expuser o indivíduo a riscos evitáveis, da mesma forma que estratégias de segurança tornam-se mais eficazes quando o paciente está informado, engajado e participa ativamente do cuidado.
A integração entre segurança do paciente e cuidado centrado na pessoa é fundamental para o desenvolvimento de sistemas de saúde que conciliem excelência técnica, segurança assistencial e respeito às necessidades humanas.
A tabela 1 apresenta as diferenças conceituais, articulando os relatórios To Err Is Human e Crossing the Quality Chasm.
Tabela 1 – Diferenças conceituais entre Segurança do Paciente e Cuidado Centrado na Pessoa segundo relatórios do IOM

Observa-se que To Err Is Human representou um marco inicial ao evidenciar a magnitude dos danos evitáveis na assistência à saúde, configurando-se como um importante chamado à conscientização. Por outro lado, Crossing the Quality Chasm ampliou essa discussão ao propor uma transformação sistêmica, orientada para um cuidado seguro, efetivo e centrado na pessoa.
Adicionalmente, conforme Abid et al. (2024), o cuidado centrado na pessoa deve ser compreendido como um modelo ampliado, que transcende a experiência do paciente e incorpora a experiência humana como eixo central da qualidade em saúde, exigindo mudanças organizacionais e reposicionando a pessoa — e não a doença — no centro dos sistemas de cuidado.
Corroborando essa perspectiva, as recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) reforçam que o cuidado centrado na pessoa deve ser incorporado também no contexto da medicina laboratorial, tradicionalmente caracterizada por menor contato direto com o paciente. Nesse cenário, destaca-se a necessidade de reconhecer o indivíduo para além da condição clínica, compreendendo seus valores, preferências e necessidades como elementos que devem orientar as decisões em saúde, inclusive no que se refere à solicitação, realização e interpretação de exames laboratoriais (SBPC/ML, 2025). Essa abordagem amplia o papel dos serviços laboratoriais, que deixam de atuar exclusivamente como suporte técnico-diagnóstico e passam a integrar uma lógica assistencial mais abrangente, alinhada aos princípios do cuidado centrado na pessoa.
Normas de acreditação em saúde, como o Manual ONA 2026 e o PALC 2025, reforçam a centralidade do paciente como eixo estruturante da qualidade assistencial, ao incorporarem requisitos que promovem um cuidado seguro, ético e individualizado. No âmbito dos serviços de análises clínicas, essas diretrizes evidenciam a necessidade de processos que assegurem comunicação clara, acessível e efetiva ao paciente em todas as etapas do ciclo laboratorial, desde as orientações prévias até a liberação dos resultados, respeitando suas necessidades, condições e singularidades. Destacam-se, ainda, requisitos relacionados à obtenção do consentimento livre e esclarecido, à garantia da privacidade e confidencialidade das informações e ao fortalecimento da autonomia do paciente no processo assistencial. Ademais, práticas como o acolhimento qualificado, a valorização das manifestações dos usuários e a adaptação do cuidado a públicos vulneráveis consolidam a incorporação do cuidado centrado na pessoa como princípio fundamental para a promoção da qualidade e da segurança nos serviços laboratoriais (ONA, 2025; SBPC/ML, 2025).
Diante do exposto, compreender as origens conceituais distintas entre segurança do paciente e o cuidado centrado na pessoa é necessário para integrar estas dimensões complementares e indissociáveis na construção da qualidade em saúde. No contexto da medicina laboratorial, essa integração torna-se particularmente relevante, uma vez que a qualidade não se restringe à precisão analítica, mas abrange também a forma como os resultados são comunicados, compreendidos e utilizados na tomada de decisão clínica. A construção de sistemas de saúde verdadeiramente centrados na pessoa dependerá da capacidade de integrar, de forma equilibrada, excelência técnica, segurança assistencial e valorização da experiência humana no cuidado.
Referências:
ABID, Muhammad Hasan et al. Patient-centered healthcare: from patient experience to human experience. Global Journal on Quality and Safety in Healthcare, v. 7, n. 4, p. 144–148, 2024.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília: Anvisa, 2017.
GERTEIS, M. et al. Through the patient’s eyes: understanding and promoting patient-centered care. San Francisco: Jossey-Bass, 1993.
INSTITUTE OF MEDICINE. To err is human: building a safer health system. Washington, DC: National Academy Press, 1999.
INSTITUTE OF MEDICINE. Crossing the quality chasm: a new health system for the 21st century. Washington, DC: National Academy Press, 2001.
ORGANIZAÇÃO NACIONAL DE ACREDITAÇÃO (ONA). Manual Brasileiro de Acreditação: Organizações Prestadoras de Serviços de Saúde. Brasília: ONA, 2025.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML). Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos (PALC): norma PALC. Rio de Janeiro: SBPC/ML, 2025.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML). Recomendações para gestão da qualidade em medicina laboratorial. Rio de Janeiro: SBPC/ML, 2025.

