Edição Jan-Fev 2026
Nova droga veterinária misturada ao fentanil acende alerta global para crise grave de abstinência
A circulação crescente da medetomidina, um sedativo de uso veterinário que vem sendo adicionado ilegalmente ao fentanil nos Estados Unidos, está provocando uma nova e preocupante crise de saúde pública, marcada por quadros de abstinência mais graves, prolongados e difíceis de tratar do que os já conhecidos na epidemia de opioides. O toxicologista e patologista clínico Alvaro Pulchinelli Jr., presidente do conselho de ex-presidentes da SBPC/ML explica que a associação representa um salto de complexidade e risco.
“Quando a medetomidina é adicionada ao fentanil, o desafio é muito maior, porque estamos falando de uma substância mais potente, com duração mais longa e efeitos cardiovasculares, neurológicos e psiquiátricos muito mais profundos”, afirma.
Segundo Pulchinelli, além da sedação intensa - que pode levar o usuário a perder a consciência em ambientes inseguros, como ruas e locais expostos ao frio extremo -, a abstinência da medetomidina desencadeia um quadro clínico particularmente instável. “Na retirada da droga, ocorre o efeito oposto: aumento importante da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial e um quadro de encefalopatia, com risco real de vida. Não é raro que esses pacientes evoluam para complicações cardiovasculares graves, como infarto, exigindo internação em UTI”, destaca. O especialista ressalta que esse cenário é mais severo do que o observado com outros opióides, em parte porque a medetomidina tem meia-vida mais longa e atua em receptores alfa-2-adrenérgicos centrais, o que dificulta o controle clínico.
Do ponto de vista laboratorial, o diagnóstico também impõe desafios relevantes. “Os exames de rotina dos laboratórios hospitalares e de toxicologia não estão preparados para identificar essa substância. A detecção exige métodos avançados, como cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massa, que precisam ser padronizados e, sobretudo, contar com padrões de referência puros - algo difícil de obter”, explica Pulchinelli. Na prática, isso faz com que muitos casos sejam diagnosticados principalmente com base no quadro clínico, já que testes rápidos não conseguem detectar a medetomidina.
Embora ainda não haja evidências consistentes da circulação da droga no Brasil, o presidente da SBPC/ML alerta que o risco não pode ser ignorado.
“Não vivenciamos aqui a epidemia de opioides observada nos Estados Unidos há mais de 15 anos, mas essa é uma substância nova e que pode, sim, ser introduzida no país. Ela precisa estar no radar das autoridades de saúde”, afirma. Para ele, a resposta passa necessariamente por uma estratégia estruturada de saúde pública. “Precisamos pensar em uma rede de laboratórios de toxicologia, mais bem aparelhados e em comunicação entre si, capazes de apoiar a identificação dessas substâncias emergentes. São mais de 40 ou 50 novas drogas descritas por ano, e nenhum laboratório consegue dar conta disso sozinho.”
Nesse contexto, a Patologia Clínica desempenha papel central tanto na assistência quanto na vigilância. “Em toxicologia, trabalhamos em dois pilares: o suporte à vida, com exames de bioquímica e hematologia fundamentais para estabilizar o paciente, e o desenvolvimento de métodos específicos para detectar a substância envolvida. Quando conseguimos estruturar laboratórios de referência, isso contribui diretamente para o diagnóstico, o prognóstico e a tomada de decisão clínica”, conclui Pulchinelli. Para o especialista, fortalecer essa rede é essencial para que o Brasil esteja preparado diante da rápida evolução do mercado de drogas ilícitas e de seus impactos cada vez mais complexos sobre a saúde.

