Edição Jan-Fev 2026 Publicado em: 13 janeiro 2026 | 16:00h

Brasil identifica subclado K da gripe H3N2 e reforça alerta para vacinação e vigilância laboratorial

Detecção do novo subclado do vírus Influenza A ocorre em um cenário em que a gripe segue como uma das principais causas de mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave no país

A identificação do subclado K do vírus Influenza A (H3N2) no Brasil reforça a necessidade de vigilância epidemiológica contínua e de ampliação da cobertura vacinal contra a gripe. O subclado, também denominado clado 2a.3a.1, já vinha sendo monitorado internacionalmente devido ao aumento de sua circulação em países do hemisfério norte e agora passa a integrar o cenário nacional.

Para o patologista clínico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), João Renato Rebello Pinho, a detecção tem relevância epidemiológica e demonstra a inserção do Brasil na dinâmica global de evolução do vírus.


“A presença do subclado K no país mostra que estamos expostos às mesmas rotas de dispersão do H3N2 observadas internacionalmente. Embora não haja evidências de maior gravidade clínica, trata-se de um evento sentinela que indica que o vírus continua evoluindo e que o monitoramento genômico é essencial”, afirma.

O primeiro caso identificado no Brasil foi classificado como importado, envolvendo uma paciente estrangeira vinda das Ilhas Fiji para participar da COP30, com diagnóstico realizado pelo Lacen do Pará e caracterização genética conduzida pela Fiocruz. Até 22 de dezembro de 2025, outros casos já haviam sido registrados no Mato Grosso do Sul. Segundo Pinho, vírus respiratórios têm alto potencial de disseminação, o que exige atenção permanente das autoridades de saúde. “Esses agentes tendem a se expandir rapidamente, o que torna a vigilância contínua um elemento estratégico para resposta precoce e mitigação de impactos”, explica.

O alerta ocorre em um contexto preocupante do ponto de vista da saúde pública. Em 2025, o Brasil registrou 13.678 óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Mais da metade dessas mortes teve confirmação laboratorial para vírus respiratórios, e a influenza A respondeu por quase metade dos casos positivos.

“Os dados mostram de forma clara que a influenza, especialmente a influenza A, continua sendo um dos principais agentes associados à mortalidade por SRAG no país”, destaca Pinho. Nas últimas semanas epidemiológicas avaliadas, a influenza A manteve participação relevante entre os óbitos, disputando protagonismo com o vírus da Covid-19.

De acordo com o especialista, a baixa cobertura vacinal contra a gripe em 2025, estimada em cerca de 53,6% entre os grupos prioritários, provavelmente contribuiu para o aumento relativo de casos graves e mortes. “A vacinação permanece como a principal ferramenta para reduzir hospitalizações e óbitos. Esses números reforçam que a influenza não é uma doença banal e que a adesão à vacina precisa ser fortalecida”, alerta Pinho.

Mesmo diante da circulação de variantes e subclados, como o K, as recomendações de vacinação seguem inalteradas. As vacinas utilizadas no Brasil são atualizadas anualmente com base nas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e consideram a circulação global das linhagens do H3N2.


“Embora mutações possam gerar algum grau de escape imunológico, o subclado K não está associado a quadros mais graves. A vacina continua sendo altamente eficaz para prevenir desfechos severos, especialmente em idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com comorbidades”, reforça Pinho.

A detecção do subclado K também evidencia a robustez da vigilância laboratorial no país, sustentada por uma rede integrada que envolve laboratórios públicos, universidades e o setor privado. Além do diagnóstico molecular de rotina, essa estrutura amplia a capacidade de sequenciamento genômico e acelera a identificação de variantes circulantes. “O modelo ideal de vigilância é tripartite, com a atuação coordenada da rede pública, de laboratórios universitários e de laboratórios privados com expertise em virologia e genômica. Essa integração aumenta a sensibilidade do sistema e fortalece a capacidade de resposta do Brasil frente às mudanças genéticas do vírus da gripe”, conclui o patologista clínico da SBPC/ML.