Edição Mai-Jun 2026 Publicado em: 06 maio 2026 | 09:56h

ARTIGO: Diferenças conceituais entre segurança do paciente e cuidado centrado na pessoa

O conceito de cuidado centrado na pessoa vem ganhando crescente evidência no âmbito da saúde, sendo frequentemente apresentado como uma evolução da segurança do paciente. Nesse contexto, o relatório Crossing the Quality Chasm: A New Health System for the 21st Century, publicado pelo Institute of Medicine (IOM) em 2001, destaca-se como um marco conceitual ao propor uma abordagem ampliada do sistema de saúde, fundamentada em seis dimensões da qualidade: segurança, efetividade, cuidado centrado no paciente, oportunidade, eficiência e equidade.


Dentre essas dimensões, a segurança do paciente e o cuidado centrado na pessoa assumem papel central nas políticas de qualidade e acreditação em saúde. Embora frequentemente tratadas de forma integrada, tais diretrizes apresentam pressupostos conceituais distintos, o que torna necessária sua análise comparativa para adequada aplicação nos serviços de saúde.


O cuidado centrado no paciente engloba as qualidades de empatia, compaixão e capacidade de resposta às necessidades, valores e preferências expressas por cada indivíduo. Aplica-se a pessoas de todas as idades e pode ser desenvolvido em diferentes níveis de atenção à saúde, sendo fundamentado em parcerias mutuamente benéficas entre profissionais de saúde, pacientes e familiares (ANVISA, 2017). Essa abordagem pressupõe o respeito à singularidade de cada indivíduo, incluindo suas crenças, valores, origens culturais e contextos sociais, incorporando tais aspectos no planejamento e na execução do cuidado. Nesse sentido, o cuidado centrado no paciente deve assegurar que a assistência seja prestada de forma equitativa, sem variações decorrentes de características pessoais, como identidade de gênero, etnia, condição socioeconômica ou localização geográfica, reconhecendo e respondendo às
diversas necessidades de uma população heterogênea.


A segurança do paciente foi inicialmente definida como a redução do risco de danos desnecessários associados ao cuidado em saúde a um nível mínimo aceitável, conforme estabelecido no relatório To Err Is Human: Building a Safer Health System (IOM, 1999). Essa publicação evidenciou a elevada incidência de eventos adversos evitáveis decorrentes de falhas nos sistemas assistenciais, consolidando a compreensão de que os erros em saúde são, majoritariamente, consequência de falhas sistêmicas, e não exclusivamente de falhas individuais.


Dessa forma, as estratégias voltadas à segurança do paciente priorizam o redesenho de processos, a padronização de práticas, a implementação de protocolos assistenciais, a gestão de riscos e o fortalecimento de uma cultura organizacional de segurança, caracterizada pela aprendizagem contínua e pela não punição. Trata-se, portanto, de uma abordagem com enfoque predominantemente técnico, organizacional e processual.


Por sua vez, o cuidado centrado na pessoa é definido como a assistência que respeita e responde às preferências, necessidades e valores individuais, assegurando que esses elementos orientem todas as decisões clínicas (IOM, 2001). Essa diretriz desloca o foco do
cuidado exclusivamente técnico para uma abordagem que incorpora a experiência do paciente como elemento central da qualidade assistencial.

 

De acordo com Gerteis et al. (1993), o cuidado centrado no paciente envolve dimensões como respeito aos valores e preferências, comunicação efetiva, suporte emocional, envolvimento da família e cuidadores, coordenação do cuidado e garantia de conforto físico e psicológico. Nesse modelo, o paciente é reconhecido como sujeito ativo, participante do processo decisório e corresponsável pelo cuidado.


Essa mudança representa um novo paradigma, caracterizado pelo empoderamento do paciente, pela tomada de decisão compartilhada e pela valorização da experiência do cuidado, para além dos desfechos clínicos. Nessa perspectiva, a qualidade em saúde passa a ser definida não apenas por critérios técnicos, mas também pela experiência vivida do paciente.


Corroborando essa abordagem, Abid et al. (2024) destacam que o cuidado centrado na pessoa deve ser compreendido como um modelo ampliado de atenção, que integra valores individuais e experiência humana como elementos estruturantes da qualidade em saúde.


Diferentemente da segurança do paciente, o cuidado centrado na pessoa enfatiza aspectos relacionais, comunicacionais e éticos, buscando alinhar as práticas assistenciais ao contexto social, cultural e emocional do indivíduo.


O IOM ressalta que as dimensões da qualidade são complementares e interdependentes, podendo, em determinadas situações, gerar tensões que devem ser equilibradas na prática assistencial. Assim, um cuidado não pode ser considerado centrado na pessoa se expuser o indivíduo a riscos evitáveis, da mesma forma que estratégias de segurança tornam-se mais eficazes quando o paciente está informado, engajado e participa ativamente do cuidado.


A integração entre segurança do paciente e cuidado centrado na pessoa é fundamental para o desenvolvimento de sistemas de saúde que conciliem excelência técnica, segurança assistencial e respeito às necessidades humanas.


A tabela 1 apresenta as diferenças conceituais, articulando os relatórios To Err Is Human e Crossing the Quality Chasm.


Tabela 1 – Diferenças conceituais entre Segurança do Paciente e Cuidado Centrado na Pessoa segundo relatórios do IOM

 

Eixo analítico To Err Is Human (1999)  Crossing the Quality Chasm (2001)
Principal foco

Segurança do paciente e redução de erros

Redesenho sistêmico para qualidade
Âmbito Falhas e danos Sistema completo de saúde
Cuidado centrado na pessoa Implícito: segurança é um pré-requisito ético do cuidado, mas não há definição formal de centralidade no paciente. Cuidado que respeita e responde às preferências, necessidades e valores do paciente, garantindo que esses valores orientem todas as decisões clínicas.
Contexto histórico Surge em um cenário de forte confiança no avanço tecnológico, mas com baixa visibilidade dos danos causados pela assistência à saúde. Publicado como continuidade direta, reconhecendo que a segurança é parte de um problema sistêmico maior.
Problema central Alta incidência de eventos adversos evitáveis, resultantes de falhas do sistema, e não de incompetência individual. Existência de um “abismo” entre o conhecimento científico disponível e o cuidado efetivamente prestado aos pacientes.
Visão do paciente O paciente aparece principalmente como vítima de erros e danos evitáveis. O paciente é reconhecido como parte ativa do sistema e como referência para a definição de qualidade.
Abordagem da qualidade Qualidade associada prioritariamente à segurança do paciente e à redução de erros. Qualidade definida de forma multidimensional, integrando segurança, efetividade, experiência, equidade e eficiência.
Responsabilidade Falhas sistêmicas e cultura punitiva Redesenho do sistema
Papel dos profissionais Profissionais são parte de sistemas falhos e vítimas de processos inseguros. Profissionais devem atuar em equipes interdisciplinares, com apoio de sistemas de informação e decisões compartilhadas.
Participação do paciente Pouco explorada; foco maior na prevenção de danos. Paciente é passivo no seu cuidado. Incentiva decisões compartilhadas, comunicação efetiva e respeito às escolhas do paciente.
Impacto em políticas Impulsionou políticas globais de segurança do paciente e sistemas de notificação de eventos adversos. Influenciou reformas nos sistemas de saúde, modelos de atenção, acreditação e avaliação da qualidade.
Legado Colocou a segurança do paciente na agenda internacional de saúde. Redefiniu o conceito de qualidade em saúde para o século XXI: segurança, efetividade, centrada no paciente, oportuna, eficiência e equidade.

 

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nas referências do Institute of Medicine (1999; 2001).


Observa-se que To Err Is Human representou um marco inicial ao evidenciar a magnitude dos danos evitáveis na assistência à saúde, configurando-se como um importante chamado à conscientização. Por outro lado, Crossing the Quality Chasm ampliou essa discussão ao propor uma transformação sistêmica, orientada para um cuidado seguro, efetivo e centrado na pessoa.


Adicionalmente, conforme Abid et al. (2024), o cuidado centrado na pessoa deve ser compreendido como um modelo ampliado, que transcende a experiência do paciente e incorpora a experiência humana como eixo central da qualidade em saúde, exigindo mudanças organizacionais e reposicionando a pessoa — e não a doença — no centro dos sistemas de cuidado.


Corroborando essa perspectiva, as recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) reforçam que o cuidado centrado na pessoa deve ser incorporado também no contexto da medicina laboratorial, tradicionalmente caracterizada por menor contato direto com o paciente. Nesse cenário, destaca-se a necessidade de reconhecer o indivíduo para além da condição clínica, compreendendo seus valores, preferências e necessidades como elementos que devem orientar as decisões em saúde, inclusive no que se refere à solicitação, realização e interpretação de exames laboratoriais (SBPC/ML, 2025). Essa
abordagem amplia o papel dos serviços laboratoriais, que deixam de atuar exclusivamente como suporte técnico-diagnóstico e passam a integrar uma lógica assistencial mais abrangente, alinhada aos princípios do cuidado centrado na pessoa.


Normas de acreditação em saúde, como o Manual ONA 2026 e o PALC 2025, reforçam a centralidade do paciente como eixo estruturante da qualidade assistencial, ao incorporarem requisitos que promovem um cuidado seguro, ético e individualizado. No âmbito dos serviços de análises clínicas, essas diretrizes evidenciam a necessidade de processos que assegurem
comunicação clara, acessível e efetiva ao paciente em todas as etapas do ciclo laboratorial, desde as orientações prévias até a liberação dos resultados, respeitando suas necessidades, condições e singularidades. Destacam-se, ainda, requisitos relacionados à obtenção do
consentimento livre e esclarecido, à garantia da privacidade e confidencialidade das informações e ao fortalecimento da autonomia do paciente no processo assistencial. Ademais, práticas como o acolhimento qualificado, a valorização das manifestações dos usuários e a
adaptação do cuidado a públicos vulneráveis consolidam a incorporação do cuidado centrado na pessoa como princípio fundamental para a promoção da qualidade e da segurança nos serviços laboratoriais (ONA, 2025; SBPC/ML, 2025).


Diante do exposto, compreender as origens conceituais distintas entre segurança do paciente e o cuidado centrado na pessoa é necessário para integrar estas dimensões complementares e indissociáveis na construção da qualidade em saúde. No contexto da medicina laboratorial, essa integração torna-se particularmente relevante, uma vez que a qualidade não se restringe à precisão analítica, mas abrange também a forma como os resultados são comunicados, compreendidos e utilizados na tomada de decisão clínica. A construção de sistemas de saúde verdadeiramente centrados na pessoa dependerá da capacidade de integrar, de forma
equilibrada, excelência técnica, segurança assistencial e valorização da experiência humana no cuidado.


Referências:
ABID, Muhammad Hasan et al. Patient-centered healthcare: from patient experience to human
experience. Global Journal on Quality and Safety in Healthcare, v. 7, n. 4, p. 144–148, 2024.


BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assistência segura: uma reflexão teórica
aplicada à prática. Brasília: Anvisa, 2017.


GERTEIS, M. et al. Through the patient’s eyes: understanding and promoting patient-centered
care. San Francisco: Jossey-Bass, 1993.


INSTITUTE OF MEDICINE. To err is human: building a safer health system. Washington, DC:
National Academy Press, 1999.

 

INSTITUTE OF MEDICINE. Crossing the quality chasm: a new health system for the 21st century.
Washington, DC: National Academy Press, 2001.


ORGANIZAÇÃO NACIONAL DE ACREDITAÇÃO (ONA). Manual Brasileiro de Acreditação:
Organizações Prestadoras de Serviços de Saúde. Brasília: ONA, 2025.


SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML).
Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos (PALC): norma PALC. Rio de Janeiro:
SBPC/ML, 2025.


SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML).
Recomendações para gestão da qualidade em medicina laboratorial. Rio de Janeiro: SBPC/ML,
2025.