Edição Set-Out 2026
Avanço do sarampo nas Américas reforça importância da vacinação e do diagnóstico laboratorial
O avanço do sarampo em países das Américas, especialmente nos Estados Unidos, acende um alerta para a necessidade de manter a cobertura vacinal e fortalecer as ações de vigilância epidemiológica no Brasil. Diante do aumento de casos no continente, o Ministério da Saúde intensificou as medidas de prevenção e monitoramento da doença. Embora o cenário brasileiro seja considerado mais favorável, especialistas ressaltam que a circulação do vírus em outros países e a existência de populações com baixa cobertura vacinal exigem atenção.
Segundo o médico patologista clínico e infectologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), a situação nos Estados Unidos e em alguns países europeus é mais preocupante do que no Brasil, principalmente em razão da queda da vacinação nos últimos anos.
“Nos Estados Unidos, esse problema já vem de alguns anos, um pouco antes da Covid-19, e se agravou durante a pandemia, quando muitas pessoas deixaram de procurar os serviços de saúde para se vacinar. Além disso, a hesitação vacinal contribuiu para o aumento dos casos”, explica o infectologista.
No Brasil, apesar da manutenção de uma parcela importante da população imunizada, ainda existem desafios para alcançar os índices necessários à proteção coletiva. Granato destaca que a cobertura vacinal varia entre as regiões e que é fundamental ampliar a imunização para evitar a formação de áreas vulneráveis à circulação do vírus.
“Gostaríamos que 90% a 95% da população estivesse vacinada. Estamos abaixo do ideal, mas ainda temos uma situação relativamente confortável em comparação com outros países. Isso não significa que podemos deixar de acompanhar os casos e incentivar a vacinação”, afirma.
Sintomas e complicações exigem atenção
O sarampo é uma doença infecciosa altamente contagiosa, transmitida pelo ar, que pode provocar complicações graves, especialmente em crianças pequenas, pessoas desnutridas e indivíduos com comprometimento do sistema imunológico.
Entre os principais sintomas estão febre alta, geralmente entre 38,5°C e 39°C, conjuntivite, olhos avermelhados e lacrimejantes, coriza intensa e manchas vermelhas na pele, que costumam começar no rosto e se espalhar progressivamente pelo pescoço, tronco e membros. Outro sinal característico é o aparecimento das manchas de Koplik, pequenos pontos esbranquiçados na parte interna da boca, que podem auxiliar na identificação da doença.
“O sarampo costuma apresentar um quadro clínico bastante característico, com febre alta, conjuntivite, coriza e manchas que se espalham pelo corpo. O que mais preocupa, entretanto, são as complicações, como pneumonia, encefalite e infecções bacterianas secundárias”, esclarece Celso Granato.
O profissional ressalta que o vírus também pode comprometer temporariamente o sistema imunológico, aumentando a vulnerabilidade a outras infecções mesmo após a recuperação dos sintomas iniciais.
“O vírus do sarampo afeta células de defesa do organismo. Durante a doença e até alguns meses depois, a criança pode ficar mais suscetível a infecções, como pneumonia bacteriana, otite, sinusite e até tuberculose. Por isso, temos uma preocupação especial com crianças desnutridas e imunodeprimidas”, alerta.
Exames laboratoriais contribuem para o diagnóstico precoce
Embora a suspeita inicial de sarampo seja frequentemente baseada na avaliação clínica, os exames laboratoriais desempenham papel fundamental na confirmação dos casos, especialmente quando os sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças infecciosas, como rubéola e dengue.
De acordo com Celso Granato, entre os principais métodos utilizados estão os testes moleculares, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), que identifica o material genético do vírus, e os exames sorológicos, que pesquisam anticorpos específicos produzidos pelo organismo.
“O teste molecular permite detectar o RNA do vírus e pode contribuir para o diagnóstico já nos primeiros dias da doença. Também contamos com a sorologia, que pesquisa anticorpos das classes IgM e IgG. Esses exames ajudam o médico a confirmar o diagnóstico, principalmente quando existem dúvidas em relação ao quadro clínico”, informa.
A escolha do exame e o momento da coleta são importantes para a confiabilidade dos resultados. O teste molecular é especialmente útil na fase inicial da infecção, enquanto a sorologia permite identificar a resposta imunológica ao vírus, respeitando os períodos adequados para a detecção dos anticorpos.
Além de auxiliar na confirmação diagnóstica, os laboratórios clínicos têm participação estratégica na vigilância epidemiológica. A identificação e a notificação de casos suspeitos ou confirmados permitem que as autoridades de saúde adotem medidas para interromper possíveis cadeias de transmissão.
“O laboratório tem um papel muito importante, não apenas ao oferecer o diagnóstico, mas também ao contribuir com a notificação à vigilância epidemiológica. Quando um caso é identificado, as equipes de saúde podem investigar os contatos, avaliar a necessidade de vacinação de bloqueio e acompanhar a ocorrência de outros casos na comunidade”, destaca o patologista clínico.
Vacinação é a principal forma de prevenção
A vacinação continua sendo a medida mais eficaz para prevenir o sarampo e reduzir o risco de complicações graves. No calendário nacional de vacinação, a primeira dose da tríplice viral é recomendada aos 12 meses de idade, seguida da segunda dose aos 15 meses, conforme as orientações do Ministério da Saúde.
Em situações específicas de maior risco de transmissão, também pode ser indicada a chamada dose zero para bebês de seis a 11 meses, sem substituir as doses previstas no calendário de rotina.
“É fundamental que a criança tenha recebido as duas doses da vacina. A imunização é muito efetiva e, embora não elimine completamente a possibilidade de infecção, reduz significativamente o risco de adoecimento e de evolução para formas graves”, ressalta Granato.
O membro da SBPC/ML ainda chama a atenção para a elevada capacidade de transmissão do vírus. Uma pessoa infectada pode transmitir a doença para outras 12 a 18 pessoas suscetíveis, favorecendo a ocorrência de surtos em ambientes com baixa cobertura vacinal.
Diante de sintomas suspeitos, a recomendação é procurar atendimento em uma unidade de saúde, evitar o contato com outras pessoas e seguir as orientações das equipes médicas e da vigilância epidemiológica.
“As famílias devem verificar a carteira de vacinação das crianças e procurar uma unidade de saúde caso existam dúvidas ou doses em atraso. Se houver febre alta e sintomas compatíveis com sarampo, é importante buscar avaliação médica rapidamente e evitar o contato com outras crianças, porque a transmissão é muito fácil”, orienta Celso Granato.

