Edição Set-Out 2026 Publicado em: 18 setembro 2026 | 23:25h

O que os exames podem revelar sobre o envelhecimento e o caminho para chegar bem aos 100 anos

Em aula magna no 58º CBPC/ML, médico endocrinologista e patologista clínico Pedro Saddi Rosa destacou o papel da Medicina Laboratorial, os avanços na avaliação da idade biológica e as medidas com evidências para uma longevidade saudável.

Viver mais não basta: o desafio é chegar à idade avançada preservando autonomia, capacidade funcional e qualidade de vida. Essa foi uma das principais mensagens da aula magna “Longevidade: o que um laboratório clínico pode fazer para chegar aos 100 anos?”, realizada nesta sexta-feira (18/9), no último dia do 58º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (CBPC/ML), em Florianópolis.

A atividade teve como palestrante Pedro Saddi Rosa, médico endocrinologista e patologista clínico, vice-coordenador do Comitê Científico de Endocrinologia da SBPC/ML; e presidida pelo médico patologista clínico e toxicologista Alvaro Pulchinelli Junior, presidente do Conselho de Ex-Presidentes (CONEX) da SBPC/ML. Durante a sua apresentação, Pedro abordou os avanços científicos na compreensão do envelhecimento, o desenvolvimento de novos biomarcadores e as intervenções que já contam com evidências para favorecer uma vida mais longa e saudável.

O tema ganha relevância diante do rápido envelhecimento da população brasileira. O especialista ressaltou que longevidade saudável não significa apenas ausência de enfermidades, mas envolve aspectos como mobilidade, preservação da cognição, saúde emocional e manutenção de relações sociais significativas.

“O envelhecimento é o resultado da acumulação de uma ampla variedade de danos moleculares e celulares ao longo do tempo”, explicou Pedro, ao apresentar o conceito adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses processos estão relacionados à redução progressiva das capacidades físicas e mentais e ao aumento do risco de doenças crônicas associadas à idade.

Ciência busca compreender a idade biológica

Um dos campos que mais avançam é o estudo das diferenças entre a idade cronológica e a chamada idade biológica. Duas pessoas de 50 anos, por exemplo, podem apresentar condições de saúde e processos de envelhecimento bastante distintos.

A Medicina Laboratorial pode contribuir justamente para caracterizar essas diferenças. Além dos exames tradicionais, como glicemia e colesterol, pesquisas investigam informações provenientes da metabolômica, proteômica, microbiota e alterações epigenéticas, associadas a indicadores funcionais, como força muscular e capacidade cardiorrespiratória.

“O laboratório tem um papel central nessa medicina personalizada, nessa caracterização individual do envelhecimento das pessoas, quer seja por alguns desses exames, quer seja por exames que estão para chegar”, afirmou Pedro durante o debate após a apresentação.

Entre as tecnologias abordadas estão os relógios epigenéticos, ferramentas que analisam padrões de modificações no DNA, especialmente a metilação, para produzir estimativas moleculares relacionadas à idade biológica. De acordo com Pedro, a proposta é ajudar a identificar pessoas que apresentam diferentes velocidades de envelhecimento e, futuramente, contribuir para avaliações mais individualizadas.

O palestrante explicou que os relógios epigenéticos evoluíram ao longo dos últimos anos. Enquanto as primeiras gerações apresentavam forte correlação principalmente com a idade cronológica, modelos mais recentes passaram a incorporar associações com mortalidade e outros desfechos de saúde. Como exemplo, apresentou o GrimAge, um dos modelos estudados nessa área, e destacou que a aceleração da idade biológica estimada por esse tipo de ferramenta tem sido associada ao aumento do risco de mortalidade.

Pedro ressaltou, entretanto, que esses exames não substituem a avaliação clínica tradicional. Embora possam acrescentar informações aos modelos de risco já estabelecidos, o ganho de predição ainda é considerado modesto em determinados desfechos e há questões importantes a serem respondidas, como quais grupos realmente se beneficiariam da realização desses testes. “É preciso refinar quem se beneficia a mais para poder fazer as análises de custo-efetividade, impacto orçamentário e plantear a incorporação dessas novas tecnologias”, pontuou.

Blue Zones ajudam a estudar hábitos ligados à longevidade

Apesar dos avanços tecnológicos, uma parte importante das evidências sobre longevidade continua relacionada aos hábitos cotidianos. Durante a aula magna, Rosa citou as chamadas Blue Zones (Zonas Azuis), regiões conhecidas pela elevada presença de pessoas longevas e que têm sido estudadas em busca de características comuns relacionadas ao envelhecimento saudável.

Entre os exemplos apresentados estão regiões da Sardenha, na Itália, e Okinawa, no Japão. Segundo Pedro, populações descritas nessas áreas compartilham características como alimentação com grande presença de vegetais, vida fisicamente ativa, manutenção de um senso de propósito e menores níveis de estresse.

A observação dessas populações ajuda a ilustrar a importância de fatores comportamentais e sociais para a longevidade. O profissional reforçou, porém, que não existe uma única intervenção capaz de explicar quem chegará aos 100 anos. A longevidade resulta da combinação de fatores biológicos, ambientais, comportamentais e sociais.

Biomarcadores avançam, mas prevenção continua essencial

Alguns biomarcadores já começam a ganhar espaço na prática clínica em contextos específicos. Pedro citou, entre os exemplos, marcadores sanguíneos relacionados à doença de Alzheimer, utilizados como apoio à investigação principalmente em pacientes que apresentam comprometimento cognitivo.

Outras possibilidades, como grandes painéis metabolômicos associados ao risco de mortalidade, ainda estão predominantemente no campo da pesquisa. Para o patologista clínico, essas tecnologias mostram o potencial de uma Medicina Laboratorial cada vez mais capaz de integrar diferentes informações para compreender o processo de envelhecimento.

Apesar dos avanços, Pedro fez um alerta contra soluções que prometem retardar o envelhecimento sem comprovação científica. “Nós não temos evidência atual de que qualquer droga, medicamento ou suplemento seja capaz de postergar o envelhecimento. Isso está em investigação”, destacou.

Por outro lado, há um conjunto de medidas amplamente estudadas que pode contribuir para a longevidade saudável: atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado, manejo do estresse, manutenção de vínculos sociais, vacinação, abandono do tabagismo e realização dos rastreamentos recomendados conforme idade e fatores individuais de risco.

“Não é tudo ou nada. Existe uma relação de dose-efeito”, ressaltou o vice-coordenador do Comitê Científico de Endocrinologia da SBPC/ML ao abordar os hábitos de vida. A adoção progressiva de comportamentos saudáveis, portanto, pode trazer benefícios mesmo para quem não consegue seguir simultaneamente todas as recomendações.

Rosa ainda apresentou dados de um estudo com veteranos norte-americanos que avaliou diferentes fatores relacionados ao estilo de vida. Na apresentação, destacou que cada fator saudável adicional foi associado a uma redução de aproximadamente 19% na mortalidade por todas as causas. Entre indivíduos avaliados por volta dos 40 anos, aqueles que reuniam oito fatores de baixo risco apresentaram uma diferença de expectativa de vida de cerca de 20 anos em comparação com aqueles que concentravam os fatores de alto risco.

A preservação da massa e da força muscular também recebeu destaque. O palestrante mostrou estudos que utilizam a força de preensão palmar como indicador da condição muscular. “Cada cinco quilos de força que você ganha, você diminui mortalidade em 16% a 20%. E, ao contrário, cada cinco quilos de força que você perde, aumenta a mortalidade em 16% a 20%”, afirmou. Ele esclareceu que isso não significa simplesmente exercitar as mãos, mas que a medida funciona como um marcador relacionado à massa e à força muscular.

Laboratório pode apoiar prevenção mais personalizada

Durante as perguntas, a discussão voltou-se ao papel específico da Patologia Clínica na longevidade. Pedro diferenciou os exames de rastreamento respaldados por evidências de solicitações laboratoriais indiscriminadas.

“Rastreamento de diabetes está bem consolidado, rastreamento de dislipidemia também. Mas tem muita coisa que é solicitada sem que haja evidência por trás”, afirmou.

A tendência, na avaliação do especialista, é que o laboratório assuma participação cada vez maior na personalização das estratégias de prevenção, combinando exames já consolidados com novos biomarcadores capazes de caracterizar riscos individuais.

Ao abordar os relógios epigenéticos, Pedro reforçou que ainda existe um caminho científico a percorrer antes de uma incorporação mais ampla dessas tecnologias. Uma das questões é entender se elas podem identificar riscos em indivíduos mais jovens antes do surgimento de alterações tradicionais, como mudanças na glicemia ou no colesterol.

A mensagem final da aula magna reforçou que as novas tecnologias podem ampliar a capacidade da Medicina Laboratorial de compreender como cada indivíduo envelhece, mas não substituem medidas de prevenção respaldadas pela ciência. “A medicina baseada em ciência e prevenção é o caminho mais seguro e eficaz para uma longevidade saudável”, concluiu Pedro Saddi Rosa.