Edição Set-Out 2026
Testes rápidos e IA aceleram diagnóstico de infecções e podem ajudar a direcionar tratamento
A evolução dos testes rápidos e o uso da inteligência artificial (IA) estão abrindo novas possibilidades para reduzir o tempo entre a identificação de uma infecção e a definição do tratamento mais adequado ao paciente. Os avanços foram apresentados nesta quinta-feira (17/9), durante aula magna do 58º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (CBPC/ML), em Florianópolis.
Com o tema “Detecção da resistência à decisão terapêutica: como AST rápido, testes moleculares e inteligência artificial estão transformando a microbiologia clínica”, a palestra foi ministrada por Cecilia Carvalhaes, especialista em microbiologia clínica, que atua como assessora de Assuntos Médicos Globais da BioMérieux, nos Estados Unidos; e presidida pela médica patologista clínica Marinês Dalla Valle Martino, membro titular da SBPC/ML e integrante do Comitê Gestor do BrCAST (Comitê Brasileiro de Testes de Sensibilidade aos Antimicrobianos).
Ao apresentar as mudanças em curso na área, Cecília ressaltou que a atuação do laboratório vai muito além da realização do exame. Para que o avanço tecnológico se traduza efetivamente em benefício para o paciente, é necessário integrar todas as etapas, desde a indicação e a coleta da amostra até a comunicação do resultado e a atuação da equipe assistencial. “Hoje, o papel do laboratório é muito mais do que fazer o teste dentro do laboratório. É participar para que toda a cadeia funcione e para que se tenha o desfecho adequado”, afirmou.
Hemocultura continua fundamental
Um dos principais pontos da apresentação foi a hemocultura, exame fundamental para identificar microrganismos presentes na corrente sanguínea. A especialista destacou que os avanços tecnológicos não eliminam a importância das práticas básicas da microbiologia, especialmente os cuidados na fase pré-analítica.
A indicação adequada do exame, o volume de sangue coletado, o número de frascos, o transporte rápido da amostra e as medidas para evitar contaminações são determinantes para a qualidade do resultado. A palestrante lembrou ainda que a hemocultura funciona também como um indicador da qualidade da assistência, por meio de parâmetros como taxas de positividade e contaminação.
“Não podemos esquecer cada vez mais a importância do pré-analítico e da qualidade básica da microbiologia. Não adianta ter o melhor teste rápido de sensibilidade se a coleta não foi feita corretamente”, ressaltou.
A velocidade do diagnóstico ganha importância especial em quadros graves. Durante a aula magna, Cecília apresentou evidências que relacionam atrasos na adequação do tratamento antimicrobiano a piores desfechos e destacou a necessidade de tornar a microbiologia cada vez mais rápida.
Diagnóstico pode chegar mais cedo ao médico
Pelos métodos tradicionais, a identificação do microrganismo e a avaliação de sua sensibilidade aos antimicrobianos podem demandar etapas sucessivas e levar cerca de 48 horas. Novas tecnologias permitem antecipar parte dessas respostas.
Entre elas estão a espectrometria de massa, os testes moleculares e os testes rápidos de sensibilidade aos antimicrobianos, conhecidos como AST (Antimicrobial Susceptibility Testing). Essas ferramentas podem fornecer informações em poucas horas e auxiliar o médico a direcionar ou ajustar a terapia ainda no mesmo dia.
Os testes moleculares ainda podem identificar mecanismos conhecidos de resistência. Já os métodos fenotípicos rápidos avaliam diretamente como a bactéria responde aos antimicrobianos. A combinação dessas informações amplia as possibilidades de uma terapia mais direcionada, embora a especialista tenha reforçado que nenhuma tecnologia deve ser utilizada de forma isolada.
“Os métodos rápidos são importantes e a terapia direcionada o quanto antes tem impacto no custo e no desfecho clínico do paciente. A integração dos dados e a comunicação são fundamentais”, pontuou.
IA dentro da microbiologia
A inteligência artificial também começa a ocupar diferentes etapas desse processo. Cecília apontou aplicações que vão desde a identificação dos pacientes que realmente podem se beneficiar de uma hemocultura até a automação da análise de placas microbiológicas e o apoio à interpretação de grandes volumes de informações clínicas e laboratoriais.
Em alguns laboratórios, sistemas automatizados já conseguem selecionar imagens de placas e liberar resultados negativos, permitindo que os microbiologistas concentrem sua atenção nos exames positivos. Outras aplicações ainda estão em investigação, como modelos capazes de combinar informações genotípicas e fenotípicas para auxiliar na previsão da sensibilidade aos antimicrobianos.
Outro campo destacado são os sistemas de apoio à decisão clínica. A IA pode reunir dados laboratoriais, informações sobre resistência, medicamentos em uso e características clínicas do paciente e emitir alertas que contribuam para uma resposta mais rápida da equipe assistencial.
“A IA vai ajudar muito nessa comunicação rápida. Ela pode contribuir para fechar esse ciclo, que continua sendo uma responsabilidade nossa, mas que poderá ser feito de forma mais ágil”, explicou.
Tecnologia precisa estar integrada à assistência
Apesar do avanço dos equipamentos e métodos diagnósticos, Cecília chamou atenção para um desafio que extrapola o laboratório: não basta produzir um resultado rapidamente se a informação não chegar a quem pode tomar uma decisão sobre o tratamento.
“Se você só fizer o teste rápido, mas não passar essa informação rapidamente e não tiver alguém que possa atuar na terapia do paciente, não adianta. Você perdeu o seu investimento”, alertou.
Por isso, a incorporação das novas tecnologias precisa estar associada à organização dos serviços, à comunicação entre laboratório e equipes clínicas e aos programas de uso racional de antimicrobianos (antimicrobial stewardship).
“O laboratório impacta diretamente no desfecho clínico”
Em entrevista para as redes sociais da SBPC/ML após a palestra, Cecília reforçou que a inteligência artificial pode ser especialmente útil para organizar um volume de informações que cresce continuamente e transformá-lo em dados acionáveis para os profissionais de saúde.
“A IA consegue ajudar o clínico a compilar todos esses resultados laboratoriais, entender a importância deles, considerar a epidemiologia local e os antibióticos disponíveis e buscar a melhor combinação terapêutica para aquele paciente especificamente”, esclareceu.
Ao resumir a principal mensagem de sua participação no Congresso, a estudiosa destacou que a hemocultura permanece como referência no diagnóstico das infecções da corrente sanguínea, mas agora pode ser complementada por ferramentas capazes de acelerar a identificação do agente infeccioso e de sua resistência.
“A microbiologia evoluiu muito. Hoje temos identificação rápida, testes moleculares para detecção de resistência e testes rápidos de sensibilidade aos antimicrobianos diretamente da garrafa de hemocultura, possibilitando uma ação mais rápida do clínico para o tratamento adequado do paciente”, disse.
Para Cecília, é justamente a integração entre tecnologia, laboratório e assistência que permite transformar velocidade diagnóstica em benefício concreto. “O laboratório contribui e impacta diretamente no desfecho clínico, juntamente com o clínico e com a equipe de antimicrobial stewardship, buscando o melhor resultado para o paciente e também a redução de custos para o hospital”.

