Edição Set-Out 2026 Publicado em: 16 setembro 2026 | 16:15h

Livro lançado no 58º CBPC/ML resgata trajetória do Point of Care e avanço dos exames próximos ao paciente

“Point of Care: A Saga do Laboratório Fora do Laboratório”, de Paula Fernandes Távora, percorre a história dos testes realizados próximos ao paciente e mostra como tecnologias mais compactas ampliam as possibilidades do diagnóstico laboratório

Dos antigos recursos diagnósticos transportados na maleta do médico aos grandes equipamentos e sistemas automatizados dos laboratórios, a Medicina Laboratorial passou por profundas transformações. Agora, em um movimento que parece fechar um ciclo, parte da tecnologia volta a caber na palma da mão e a acompanhar profissionais de saúde até onde o paciente está.

Essa trajetória é contada no livro “Point of Care: A Saga do Laboratório Fora do Laboratório”, lançado nesta quarta-feira (16/9), durante o 58º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (CBPC/ML), em Florianópolis. A obra é da médica patologista clínica Paula Fernandes Távora, mestre em Imunologia e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), reconhecida por sua atuação na Medicina Laboratorial e, especialmente, na área de Point-of-Care Testing (POCT).

Os testes Point of Care são exames realizados no local de atendimento ou próximo ao paciente, fora da estrutura física tradicional do laboratório, mas integrados aos processos laboratoriais de qualidade e segurança. A modalidade inclui diferentes tecnologias capazes de oferecer resultados de maneira mais ágil e tem ganhado espaço em hospitais, serviços de emergência, unidades de saúde e outros ambientes assistenciais.

Durante o lançamento, Paula lembrou que a sua aproximação com o tema começou há cerca de 25 anos. A experiência acumulada ao longo desse período serviu de fio condutor para reconstruir o desenvolvimento do POCT e os desafios enfrentados até a sua incorporação crescente à prática assistencial.

“Foi quando a atenção primária, o Point of Care, os testes rápidos, os testes laboratoriais remotos chegaram para mim. Essa jornada não foi solitária. Ela foi cercada de pessoas que, como eu, acreditam no tema, acreditam no conceito e me acompanharam nos desafios”, afirmou.

Para a autora, o momento atual representa uma mudança importante na percepção sobre esses exames. “A gente perseverou, insistiu e acreditou que esse é realmente um conceito que não é extra-laboratório, ele é com o laboratório, que pode integrar, pode gerar oportunidades e pode salvar vidas”, destacou.

Da história ao futuro do diagnóstico

A proposta do livro é ir além de uma abordagem estritamente técnica. A obra recupera as origens e os diferentes momentos da evolução do POCT até chegar ao cenário atual, abordando também perspectivas para os próximos anos.

Paula conta que escrever seu primeiro livro integralmente autoral representou um desafio diferente de sua experiência com artigos e capítulos científicos. “É a minha obra-prima porque eu escrevi muitos artigos, muitos capítulos, mas é a primeira autoria de livro completo”, disse.

O próprio título surgiu depois que o conteúdo estava concluído. A palavra “saga”, explicou a autora, procura traduzir um percurso marcado por avanços, obstáculos e até retrocessos. “É uma jornada histórica, com muitos desafios. Vamos para frente, vamos para trás. Mas estou saindo deste congresso com uma alegria, porque percebi que o Point of Care encontrou a sua pertinência”, afirmou.

A especialista também relacionou a publicação à construção de um legado profissional. “Quando a gente escreve um livro, esse legado se apresenta na forma escrita. Legado não é o que você é, é o que você deixa feito e aquilo pelo qual as pessoas vão se lembrar de você”, ressaltou.

História da Medicina Laboratorial vira coleção

A publicação integra uma iniciativa da SBPC/ML voltada à preservação e à divulgação da história da Patologia Clínica e da Medicina Laboratorial. A historiadora Mariana de Carvalho Dolc, arquivista da SBPC/ML e editora da coleção, acompanha todo o processo, desde a definição dos autores e temas até a construção do roteiro, edição e desenvolvimento gráfico.

A iniciativa começou em 2024, com uma publicação reunindo 25 histórias sobre a Patologia Clínica. Na sequência, foi lançado um livro de Adagmar Andriolo sobre a história do diagnóstico da gravidez. A proposta passou, então, a estimular a participação de ex-presidentes da SBPC/ML na recuperação de capítulos importantes da especialidade.

“Os nossos livros não são técnicos, são livros de história. A gente parte do passado para chegar ao presente e fala um pouco do futuro”, explicou Mariana.

Segundo a editora, o trabalho com Paula começou em janeiro e se estendeu ao longo do ano, envolvendo não apenas a pesquisa e a escrita, mas também revisão, ilustrações, design, definição da capa e escolha das cores.

Um dos aspectos que mais surpreenderam durante a produção foi a quantidade de material histórico disponível. Inicialmente, a expectativa era de uma publicação menor, por se tratar de um assunto específico. “Quando ela foi ver o tamanho da história do Point of Care, até ela se surpreendeu. O desafio passou a ser escolher o que entraria, porque havia muito conteúdo. Conseguimos fazer um passeio histórico muito interessante”, contou Mariana.

Para a historiadora, a escolha de Paula também possui significado dentro da trajetória institucional da SBPC/ML. Além da experiência acumulada com o POCT, ela está entre as poucas mulheres que já presidiram a Sociedade.

Qualidade acompanha o exame onde ele estiver

Durante o lançamento, representantes da SBPC/ML destacaram ainda o papel da Sociedade na discussão sobre critérios de qualidade para exames realizados próximos ao paciente. Requisitos relacionados ao Point of Care já estavam presentes em versões anteriores da Norma PALC, contribuindo para orientar laboratórios acreditados sobre implantação, acompanhamento e garantia da qualidade desses testes.

A expansão do POCT, portanto, não representa uma separação entre o exame e o laboratório, mas uma ampliação da atuação da Medicina Laboratorial para diferentes pontos da assistência.

Ao olhar para os próximos anos, Paula considera que a modalidade entra em uma nova etapa no país. “O POCT encontrou seu lugar na Patologia Clínica e o Brasil vai agora caminhar a passos largos. Meus passos eram muito pequeninos e agora a gente enxerga que o momento do POCT chegou”, concluiu.

O lançamento de “Point of Care: A Saga do Laboratório Fora do Laboratório” ocorreu às 13h, durante a programação do 58º CBPC/ML, que segue até 18 de setembro, no CentroSul, em Florianópolis.