Edição Set-Out 2026 Publicado em: 17 setembro 2026 | 09:47h

Patologia Clínica 2030: residentes apontam tecnologias que devem transformar o futuro do diagnóstico

Inteligência artificial, medicina de precisão, automação, integração de dados e maior participação do laboratório nas decisões clínicas estiveram entre os temas apresentados por jovens patologistas clínicos no 58º CBPC/ML

Como será a Patologia Clínica em 2030? Inteligência artificial integrada à rotina, exames cada vez mais personalizados, laboratórios automatizados e conectados e patologistas clínicos com participação crescente nas decisões sobre o cuidado do paciente estão entre as transformações que devem marcar os próximos anos. As perspectivas foram apresentadas por médicos residentes durante a mesa “Patologia Clínica 2030: Inovação, Tecnologia e o Futuro do Diagnóstico”, realizada nesta quarta-feira (16/9), no 58º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (CBPC/ML), em Florianópolis.

A atividade foi presidida pela médica patologista clínica Rachel Petrola Jorge Bezerra, integrante do Comitê Científico de Educação em Patologia Clínica da SBPC/ML, e moderada por Isabelle Oliveira Santos, médica especialista em Patologia Clínica/Medicina Laboratorial e preceptora da residência da especialidade no Einstein. A proposta foi colocar os próprios residentes no centro da discussão sobre o futuro da profissão.

Inteligência artificial como “copiloto”

Carolina Guimarães Pinto, residente em Patologia Clínica/Medicina Laboratorial no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), abordou as aplicações da inteligência artificial no apoio à decisão diagnóstica e mostrou que parte dessas tecnologias não pertence mais apenas ao futuro. Ferramentas baseadas em algoritmos já podem atuar nas diferentes etapas do processo laboratorial, da identificação de interferências em amostras à análise de imagens, triagem de resultados e emissão de alertas que auxiliam a tomada de decisão.

A residente destacou que a IA pode reduzir tarefas repetitivas e ajudar a direcionar a atenção do patologista clínico para situações que realmente exigem avaliação especializada. Apesar dos avanços, reforçou que a responsabilidade final continua sendo do profissional.

“A decisão final permanece estritamente humana. A IA não assina laudo, o algoritmo não assina laudo. Sempre, no final, quem vai assinar somos nós”, afirmou Carolina.

A automação dessas tarefas, acrescentou, pode liberar o especialista para atividades de maior valor. “A gente quer discutir o caso que é complexo, a gente quer discutir com a clínica. Mas, para isso, precisamos ter tempo, não podemos estarmos fadigados”. 

Medicina de precisão muda a lógica do diagnóstico

Tamara Harb Roca, residente do terceiro ano de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial no Einstein, apresentou os avanços da medicina de precisão, dos novos biomarcadores e dos testes moleculares. A integração de informações provenientes da genômica, metabolômica, epigenômica, microbiômica e outras áreas, associada à inteligência artificial, permite identificar riscos, antecipar diagnósticos, prever a evolução de doenças e orientar tratamentos de maneira mais individualizada. “Será que isso é o futuro? Será que isso já não faz parte do nosso presente no laboratório ou na prática clínica?”, provocou a residente.

Tamara ressaltou que medicina de precisão não significa solicitar indiscriminadamente exames ou sequenciamento genético. O objetivo é selecionar ferramentas capazes de responder a uma questão clínica e transformar dados em informações úteis para o cuidado. “A medicina de precisão não é testar tudo indiscriminadamente. Os biomarcadores vão nos guiar no diagnóstico, prognóstico e tratamento”, explicou.

Oncologia, Neurologia, Endocrinologia, Cardiologia e Infectologia foram apresentadas como áreas em que essa transformação já pode ser observada. “O laboratório clínico passou de confirmatório a protagonista da decisão terapêutica”, destacou.

Laboratório conectado e automatizado

Edy Alyson Costa Ribeiro, residente do quarto ano de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e doutorando na área de qualidade e segurança do paciente, abordou a automação e a integração de dados no laboratório. O médico mostrou como sistemas automatizados podem acompanhar praticamente toda a jornada de uma amostra, desde sua identificação e preparação até a análise, armazenamento e liberação do resultado.

A tecnologia permite verificar tubos, direcionar amostras para equipamentos, identificar possíveis interferentes, realizar autoverificação e integrar informações de diferentes sistemas. A tendência é avançar para a chamada hiperautomação, caracterizada pela incorporação da inteligência artificial aos processos automatizados. “A automação sempre vai manter o mesmo processo”, afirmou Edy ao destacar a redução de falhas associadas à repetição e à fadiga humana.

Apesar do avanço tecnológico, o objetivo final permanece o cuidado. “É o seu paciente, o seu bem mais precioso. Todo esse processo, todo esse cuidado é para o seu paciente”, reforçou.

Do resultado laboratorial ao desfecho do paciente

Luis Fernando Galvao Azevedo, residente do segundo ano de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), discutiu uma mudança que vai além da tecnologia: acompanhar o que acontece depois que o resultado é liberado. Para o residente, um laboratório tecnicamente eficiente precisa avançar na avaliação do impacto que suas informações produzem na conduta médica e no desfecho do paciente.

Um dos conceitos abordados foi o stewardship diagnóstico, estratégia que busca garantir que o exame correto seja realizado no momento adequado e que seu resultado seja efetivamente utilizado no cuidado. A abordagem procura enfrentar tanto a solicitação excessiva de exames quanto o uso inadequado e a subutilização de testes que poderiam beneficiar o paciente. “O valor de um exame reside no seu poder de alterar a decisão clínica que beneficie esse paciente”, destacou.

Luis apresentou exemplos de como protocolos laboratoriais e a comunicação direta entre patologistas clínicos e equipes assistenciais podem contribuir para acelerar decisões e melhorar o cuidado. Para o residente, mesmo diante da expansão da automação e da inteligência artificial, a dimensão humana permanece central.

“As tecnologias realmente são essenciais, estão aí para nos ajudar. Ainda assim, não podemos desconsiderar o fato de que somos humanos cuidando de outros humanos”, afirmou.

Quem será o patologista clínico de 2030?

Thamara Rodrigues Duarte, residente do segundo ano de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), discutiu as competências que serão exigidas do patologista clínico nos próximos anos. Além do conhecimento técnico tradicional, o profissional deverá saber integrar diagnóstico, dados, tecnologia, raciocínio clínico e gestão.

“O novo perfil é de um profissional mais integrador, responsável por conectar diagnóstico, dados e tecnologia com o raciocínio clínico e com o sistema de saúde”, pontuou. 

Para Thamara, compreender novas tecnologias também significa conhecer suas limitações, avaliar seus impactos e participar de sua implementação. O patologista clínico tende a assumir maior protagonismo em áreas como inteligência artificial, ciência de dados, bioinformática, medicina de precisão, biologia molecular, gestão, qualidade, pesquisa, inovação e educação. “Temos que criar novos espaços e estar capazes para preencher esses espaços”, afirmou.

A formação dos especialistas também precisará acompanhar essa transformação. “A ciência continua sendo nossa base, associada à tecnologia, inovação, gestão e dados”, ressaltou.

Para a residente, mais importante do que simplesmente utilizar novas ferramentas será liderar sua incorporação de forma crítica. “O patologista clínico tem que ser capaz de compreender criticamente, incorporar à prática, conectar ao raciocínio clínico e, o mais importante, liderar sua utilização em benefício do paciente.”

Ao final, a discussão reforçou que o avanço tecnológico traz novas responsabilidades para a especialidade, desde o uso racional dos exames até o combate à desinformação e a ampliação do acesso às inovações. A formação médica também entrou no debate, com a defesa de maior participação da Medicina Laboratorial na orientação sobre a solicitação e interpretação adequada de exames.