Edição Set-Out 2026 Publicado em: 26 outubro 2026 | 15:45h

Novo estudo com mais de 100 mil pacientes reforça que nem todo exame de sangue exige jejum

Pesquisa publicada na JAMA Internal Medicine analisou quase 9,8 milhões de resultados laboratoriais; especialista da SBPC/ML explica quais exames podem ser realizados sem jejum e alerta para a importância do preparo individualizado.

É realmente necessário ficar horas sem comer antes de realizar um exame de sangue? Um novo estudo publicado na revista científica JAMA Internal Medicine, publicado online no dia 28 de setembro, reacendeu o debate sobre essa recomendação ao demonstrar que o tempo de jejum tem pouca influência sobre os resultados da maioria dos exames laboratoriais de rotina. A pesquisa analisou aproximadamente 9,8 milhões de resultados de mais de 101 mil pacientes adultos e reforça a importância de individualizar as orientações de preparo, evitando restrições desnecessárias.

Realizado em um hospital universitário da Coreia do Sul, com pacientes adultos ambulatoriais, o estudo avaliou a relação entre diferentes períodos de jejum e os resultados de 121 testes laboratoriais. O tempo sem alimentação foi informado pelos próprios pacientes e registrado pela equipe no momento da coleta. Os pesquisadores identificaram que, para a maioria dos exames, as diferenças foram pequenas ou não se confirmaram quando comparados a resultados da mesma pessoa em momentos distintos.

Entre os exames que apresentaram diferenças mais relevantes estavam glicose e triglicerídeos. Também foram observadas alterações em testes como gama-glutamiltransferase (GGT) e lipase, que exigem interpretação cuidadosa diante das limitações da pesquisa. Outro resultado importante foi que, nas comparações realizadas dentro do mesmo paciente, prolongar o jejum além de 12 horas não produziu diferenças que ultrapassassem os limites de desempenho estabelecidos pelo estudo.Apesar dos achados, os resultados não significam que o jejum possa ser eliminado de todos os exames. 

Segundo a médica patologista clínica Cláudia Dambroski Partel, vice-coordenadora do Comitê de Pré e Pós Analítico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), a principal contribuição do trabalho é reforçar a necessidade de orientações específicas para cada exame.

“A principal contribuição é reforçar que o preparo deve ser definido conforme o exame e sua finalidade clínica. Como se trata de um estudo observacional, realizado em um único centro, ele não permite abolir o jejum de forma generalizada nem demonstra, diretamente, quantas decisões médicas seriam modificadas”, explica.

O estudo está disponível na JAMA Internal Medicine: https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2854601.

Por que o jejum passou a ser recomendado?
Historicamente, o jejum foi adotado como forma de padronizar as condições da coleta de sangue. Isso porque a alimentação provoca alterações naturais no organismo, como o aumento da glicose, da insulina e dos triglicerídeos, que podem influenciar determinados resultados.

Além disso, concentrações elevadas de gordura no sangue podem interferir em algumas técnicas utilizadas pelos laboratórios. A especialista ressalta, porém, que é necessário diferenciar uma mudança real no organismo de uma interferência que prejudique a medição.

“A alimentação provoca mudanças no organismo, como o aumento da glicose, da insulina e dos triglicerídeos. O jejum foi recomendado para padronizar a condição da coleta e permitir a comparação com valores estabelecidos nessa mesma condição”, esclarece CláudiaPartel.

Com o passar dos anos, a recomendação acabou sendo aplicada a diversos exames, inclusive àqueles para os quais a restrição alimentar não era indispensável. As evidências científicas mais recentes têm contribuído para revisar essa prática.

Um exemplo é o perfil lipídico, utilizado para avaliar colesterol e triglicerídeos. No Brasil, a flexibilização do jejum para esses exames já foi incorporada a um consenso publicado em 2016, elaborado com a participação da SBPC/ML e de outras sociedades científicas.

Quais exames podem ser realizados sem jejum?
De acordo com a patologista clínica, exames como hemograma e hemoglobina glicada geralmente podem ser realizados sem necessidade de jejum. O perfil lipídico, que inclui colesterol e triglicerídeos, ainda pode ser coletado sem restrição alimentar na avaliação de rotina, desde que sejam respeitadas as orientações para situações específicas.

Por outro lado, alguns exames continuam exigindo preparo adequado. É o caso da glicemia de jejum, que requer, pelo menos, oito horas sem ingestão de calorias, pois os critérios de interpretação foram estabelecidos nessa condição. O teste oral de tolerância à glicose, conhecido como curva glicêmica, também exige preparo próprio.Dosagens de insulina basal e alguns exames especializados podem necessitar de jejum e horário específico para coleta.

“No caso dos triglicerídeos, valores acima de 440 mg/dL em uma coleta sem jejum podem motivar uma nova avaliação com jejum de 12 horas, conforme orientação médica”, destaca a patologista clínica.

Cláudia Partel lembra que é fundamental considerar todos os exames solicitados. Mesmo que vários não exijam jejum, a presença de um único teste que necessite desse preparo pode modificar a orientação ao paciente. Em situações de urgência, entretanto, a coleta necessária ao atendimento não deve ser adiada apenas para cumprir um período de jejum de rotina.

Alimentação pode alterar glicose, colesterol e triglicerídeos?
A influência da alimentação varia conforme o exame. A glicose, por exemplo, aumenta após as refeições. Por isso, um resultado obtido depois de comer não pode ser interpretado pelos mesmos critérios utilizados para uma glicemia de jejum.

Os triglicerídeos também podem aumentar após a alimentação, mas a sua dosagem sem jejum continua sendo útil para a avaliação cardiovascular, desde que sejam utilizados os valores de referência adequados. Em adultos, os valores desejáveis de triglicerídeos são inferiores a 150 mg/dL em jejum e a 175 mg/dL sem jejum.

Já o colesterol total e o HDL costumam apresentar variações menores. As metas de LDL, conhecido como colesterol ruim, são estabelecidas principalmente de acordo com o risco cardiovascular de cada paciente, e não pela condição de jejum.

“Uma alteração se torna relevante quando pode modificar a interpretação ou a conduta médica. Por isso, não basta identificar uma diferença numérica: é preciso avaliar sua magnitude, a condição de coleta e a proximidade de um limite de decisão”, esclarece. 

Jejum desnecessário pode trazer riscos aos pacientes
Além de não ser indispensável para muitos exames, o jejum prolongado pode provocar desconforto e dificuldades, especialmente para determinados grupos de pacientes.

Crianças, idosos, gestantes e pessoas com diabetes podem apresentar maior dificuldade para permanecer muitas horas sem alimentação. Entre pessoas que utilizam insulina ou determinados medicamentos para reduzir a glicose, o jejum também pode aumentar o risco de hipoglicemia.Há ainda impactos na rotina, como a concentração de coletas no início da manhã, dificuldades de deslocamento, faltas ao trabalho e adiamento de exames.

A vice-coordenadora do Comitê de Pré e Pós Analítico da SBPC/ML destaca que períodos prolongados sem alimentação também podem modificar alguns resultados laboratoriais, como os níveis de bilirrubina e corpos cetônicos. Na pesquisa publicada na JAMA Internal Medicine, a bilirrubina total apresentou valores aproximadamente 17% maiores nas coletas realizadas após mais de 12 horas de jejum, em comparação com aquelas feitas com menos de oito horas.

“Evitar restrições desnecessárias melhora o acesso e a experiência do paciente. Quando o jejum é indicado, devemos orientar o tempo correto e os cuidados individuais. Prolongar o jejum por conta própria não garante um resultado melhor, e os medicamentos não devem ser suspensos ou ajustados sem orientação”, alerta.

O que muda para os laboratórios?
As novas evidências reforçam a importância de os laboratórios revisarem continuamente seus protocolos de preparo, considerando as recomendações das sociedades científicas, as características dos métodos utilizados e a finalidade clínica de cada exame.

Conforme a profissional, essa atualização deve envolver toda a jornada do paciente, desde as informações disponíveis nos sites e sistemas de agendamento até as orientações fornecidas pelas equipes de atendimento e coleta. É importante ainda registrar o tempo real de jejum e, quando necessário, o horário da última refeição e os medicamentos utilizados.

Na análise dos resultados, os laboratórios precisam considerar possíveis interferências, como a lipemia, e utilizar os limites de interpretação adequados às condições da coleta. “A atualização deve ser acompanhada de treinamento e monitoramento de recoletas, dúvidas e ocorrências relacionadas ao preparo. O objetivo é retirar exigências desnecessárias mantendo a confiabilidade dos resultados e a segurança do paciente”, afirma Cláudia Partel. 

Pacientes não devem dispensar o jejum por conta própria
Embora a pesquisa represente mais uma contribuição científica para a revisão das recomendações, a SBPC/ML ressalta que seus resultados, isoladamente, não modificam os protocolos atualmente adotados. A orientação é que os pacientes confirmem previamente com o laboratório o preparo necessário para os exames solicitados e esclareçam eventuais dúvidas com o médico responsável.

“É importante esclarecer que esse estudo, isoladamente, não altera as recomendações da Sociedade. Ele acrescenta evidências que devem ser avaliadas pelas sociedades científicas e incorporadas aos procedimentos dos laboratórios. A SBPC/ML já participou da flexibilização do jejum para o perfil lipídico, mas isso não significa que todos os exames possam ser realizados nas mesmas condições”, pontua a porta-voz da entidade. 

Ela orienta que o paciente não prolongue o jejum por precaução nem suspenda medicamentos sem recomendação profissional. O consumo de água pura, em quantidade habitual, geralmente é permitido durante o jejum para exames de sangue, salvo orientação específica. Café, sucos e outras bebidas, entretanto, não devem ser considerados equivalentes à água.

Caso o paciente tenha se alimentado antes da coleta, é importante informar o que consumiu e em qual horário. Isso não significa necessariamente que todos os exames precisarão ser remarcados: a equipe do laboratório poderá avaliar quais podem ser realizados e quais exigem outro preparo. “O preparo correto depende do exame. Confirmar e seguir a orientação específica evita restrições desnecessárias e ajuda a garantir resultados confiáveis”, conclui Cláudia Partel.