Edição Mar-Abr 2026 Publicado em: 17 março 2026 | 15:09h

Exame toxicológico de larga janela completa 10 anos no Brasil e se consolida como ferramenta de prevenção no trânsito

Evento reunirá especialistas para discutir impacto da política pública na segurança viária, avanços científicos e expansão do modelo para outras atividades de risco

A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML) realiza, no dia 27 de março, no Rio de Janeiro, o evento “Ciência que Salva Vidas: Uma Década do Exame Toxicológico no Trânsito”, que marca os dez anos da implementação do exame toxicológico de larga janela no Brasil. O encontro reunirá especialistas em saúde, segurança viária, transporte e políticas públicas para discutir os resultados da medida na prevenção do uso de drogas entre motoristas profissionais e seu impacto na segurança das estradas.

A programação inclui debates sobre o impacto dos sinistros de trânsito na saúde pública, o papel da toxicologia laboratorial na prevenção de acidentes e a aplicação do exame em outros setores estratégicos, como transporte aéreo e forças de segurança. O evento contará com a participação de especialistas nacionais e internacionais e terá transmissão online com possibilidade de interação da imprensa.

Um dos destaques da agenda internacional será a participação de Luciana Iorio, presidente do Global Forum for Road Traffic Safety (WP.1), da United Nations Economic Commission for Europe (UNECE) - único órgão permanente da ONU dedicado exclusivamente à legislação de trânsito e à segurança viária. A especialista abordará o tema “Segurança viária e políticas globais de prevenção”, trazendo uma perspectiva internacional sobre o avanço de políticas públicas na área.

Para o toxicologista e patologista clínico Alvaro Pulchinelli Jr., presidente da Comissão de Ex-Presidentes da SBPC/ML, o principal legado desses dez anos vai além da segurança viária e inclui um importante avanço científico para a medicina laboratorial brasileira.

“Após uma década de implantação, acumulamos uma enorme quantidade de conhecimento científico, especialmente no uso da matriz cabelo e nas tecnologias de espectrometria de massa e cromatografia. Há dez anos esses métodos eram restritos, e hoje estão presentes em diversas áreas do laboratório. A toxicologia foi a ponta de lança desse processo”, afirma.

 

Segundo ele, o Brasil se tornou referência internacional nessa área. “Hoje realizamos mais de 300 mil exames por mês, o maior volume do mundo. Isso fez com que o país desenvolvesse uma experiência única em análise toxicológica em cabelo e espectrometria de massa”, diz. Pulchinelli destaca ainda que o exame de larga janela é uma ferramenta eficaz porque permite monitorar um período prolongado de exposição a substâncias psicoativas. “Quando a legislação exige que a amostra cubra pelo menos 90 dias, significa que o motorista precisa permanecer afastado dessas substâncias durante todo esse período. Isso reduz diretamente o risco de dirigir sob efeito de drogas e contribui para a mudança de comportamento ao longo do tempo.”

 

De acordo com o especialista, evidências acumuladas ao longo da última década indicam que a política pública tem impacto positivo na segurança viária. “Há estudos importantes, como o conduzido pelo Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso, que mostraram redução de acidentes e de mortalidade após a implantação da legislação. Isso demonstra que o programa vem produzindo resultados concretos”, afirma.

O toxicologista ressalta ainda que o volume de dados gerados pelos exames representa um patrimônio científico para o país

“Esse programa colocou os laboratórios brasileiros entre os principais produtores de conhecimento na área. Temos hoje um grande conjunto de informações que pode orientar políticas públicas de segurança e ajudar a entender melhor onde estão os principais riscos”, explica.

Um exemplo citado por ele aparece em dados recentes sobre habilitação de motoristas. “Em um relatório recente observamos que cerca de 12 mil motoristas das categorias A e B foram reprovados ao tentar obter habilitação para dirigir veículos de carga ou passageiros. Isso significa que evitamos que milhares de pessoas potencialmente sob efeito de drogas passassem a conduzir ônibus ou caminhões.”

Segundo Pulchinelli, o reconhecimento internacional também reforça a importância do modelo brasileiro. “A própria ONU e a Organização Mundial da Saúde reconheceram a experiência do Brasil, e o tema tem sido discutido no grupo de trabalho de segurança viária das Nações Unidas. Existe inclusive a perspectiva de que o exame em cabelo venha a ser recomendado para outros países.”

Para o presidente da SBPC/ML, Guilherme Ferreira de Oliveira, celebrar os dez anos da política pública é também reconhecer o papel da ciência laboratorial na proteção da vida.

“Comemorar essa década é reconhecer como a ciência produzida pelos laboratórios pode contribuir diretamente para políticas públicas e para a segurança da população. O exame toxicológico de larga janela mostrou que o conhecimento científico pode ser aplicado de forma concreta na prevenção de acidentes e na construção de um trânsito mais seguro”, afirma.

 

O evento também discutirá a expansão do uso do exame toxicológico para outras áreas que envolvem grande responsabilidade e risco. Atualmente, setores como o transporte aéreo e as forças de segurança já utilizam testes toxicológicos em seus protocolos de segurança.

“São iniciativas que começaram até antes da legislação dos motoristas profissionais. O que acontece agora é uma ampliação gradual do debate sobre a aplicação desse tipo de monitoramento em outras atividades de alto risco”, explica Pulchinelli.

Na avaliação do especialista, embora seja difícil estimar qual seria o cenário sem a legislação, há consenso sobre seu impacto positivo. “Não é possível afirmar exatamente como seria a situação sem essa política, mas podemos dizer com segurança que as estradas estariam em um patamar pior. A adoção do exame contribuiu para reduzir acidentes e salvar vidas.”

A programação reforça a abordagem multidisciplinar do evento, com a abertura conduzida por Guilherme Ferreira de Oliveira, presidente da SBPC/ML, seguida pela mensagem internacional de Luciana Iorio, presidente do WP.1 da ONU. Na sequência, o procurador do Ministério Público do Trabalho, Paulo Douglas, aborda a importância do exame toxicológico na proteção dos trabalhadores do transporte. O médico ortopedista Marcos Musafir apresenta o impacto dos sinistros graves de trânsito na saúde pública brasileira, enquanto Alvaro Pulchinelli Jr. discute a relevância científica do exame toxicológico de larga janela. A perspectiva das vítimas será trazida por Rodolfo Rizzotto, fundador da ONG Trânsito Amigo.

A agenda inclui ainda a participação de Marco Cantero, que aborda o controle de drogas no transporte aéreo e padrões internacionais de segurança, e do coronel Elias Miler da Silva, sobre o uso do exame toxicológico nas polícias militares. O especialista Marco Túlio Mello discute a relação entre sono, fadiga e uso de drogas nos transportes. O evento também traz depoimentos em vídeo do motorista profissional Cajau Antonelli, com a visão de quem vive na estrada, e de Renato Dias, ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, sobre o impacto da política na segurança viária. 

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