Palestra Magna - Inteligência Artificial aponta caminhos para o futuro dos laboratórios clínicos
A Inteligência Artificial (IA) já é uma realidade no dia a dia de diferentes setores e promete transformar profundamente o futuro dos laboratórios clínicos. O tema foi apresentado nesta sexta-feira, 19, na palestra magna do 57º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (CBPCML), pelo médico turco e especialista em medicina laboratorial Deniz Ilhan Topcu.
Segundo o palestrante, a reflexão sobre IA no laboratório envolve tanto o presente quanto o futuro. “Trata-se de uma visão de futuro, um exercício de previsão sobre o que pode acontecer em 50 anos. Na verdade, estamos vivendo agora o que foi previsto há cerca de 50 anos - e, de certa forma, isso ocorreu simultaneamente de forma natural e artificial. Eu acredito que já temos exemplos claros hoje: com ferramentas como GPTs e Gemini, estamos melhorando nosso trabalho com esses recursos", destacou.
Topcu explicou que a principal proposta de sua apresentação foi mostrar como a IA pode melhorar a eficiência dos laboratórios clínicos, em especial nas fases pré-analítica e pós-analítica. Mas também ressaltou a importância de reconhecer as limitações atuais da tecnologia. “Apenas 3% dos dados gerados hoje em hospitais e laboratórios são efetivamente processados. Esse é um número muito limitado. Nosso objetivo deve ser ampliar essa capacidade para melhorar o funcionamento dos laboratórios e os resultados para os pacientes", afirmou.
O especialista detalhou o processo de construção de um modelo de aprendizado de máquina (machine learning, ML), destacando os sete passos fundamentais: formulação do problema, coleta de dados, processamento, engenharia de variáveis, desenvolvimento do modelo, avaliação de performance, validação e implementação. “Antes de aplicar IA, precisamos ter clareza absoluta sobre o problema. Muitas vezes vejo pessoas querendo usar a IA em tudo, mas nem sempre essa é a melhor solução. O primeiro passo é definir com objetividade se realmente precisamos de IA ou ML", observou.
Além de otimizar processos, a IA tem potencial para oferecer maior consistência e segurança aos resultados laboratoriais. “Os computadores podem lidar com volumes muito maiores de dados, em alta velocidade e com mais eficiência. A IA revela padrões que nós, humanos, não conseguimos enxergar, e isso pode apoiar médicos, profissionais de laboratório, gestores e pacientes em decisões clínicas mais assertivas", explicou.
Entre as aplicações práticas, Topcu citou controle de qualidade, diagnóstico, predição de risco, cálculo de intervalos de referência e sistemas de autoverificação. Também destacou o papel estratégico dos laboratórios clínicos como fonte de dados, curadores de dados e desenvolvedores de modelos próprios.
Apesar do avanço, ainda existem desafios a superar, como a explicabilidade dos modelos, os vieses de dados e as questões éticas. “A IA em saúde precisa ser transparente, segura, justa e responsável. É fundamental proteger a autonomia do paciente, garantir diversidade nos conjuntos de dados e calibrar algoritmos de acordo com a população local", reforçou.
O palestrante concluiu lembrando que o futuro da IA na medicina deve estar integrado à formação de profissionais. “O mais importante é que não devemos temer a IA, mas sim entendê-la e incluí-la na formação de futuros médicos e profissionais de laboratório", afirmou.

