Edição Mai-Jun 2026
Resistência antimicrobiana: debate sobre carne brasileira reforça alerta para a saúde pública global
A recente decisão da União Europeia de impor restrições à importação de carnes brasileiras reacendeu uma discussão que ultrapassa as questões comerciais e regulatórias. No centro do debate está uma preocupação crescente da comunidade científica e das autoridades sanitárias: a resistência antimicrobiana (AMR), considerada uma das maiores ameaças à saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo o diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), André Doi, a preocupação decorre do impacto que o uso inadequado de antimicrobianos pode causar não apenas na produção animal, mas também na saúde humana e ambiental. “Trata-se de um problema de saúde pública global, uma vez que bactérias resistentes podem se disseminar entre países e comprometer a eficácia dos tratamentos disponíveis”, explica.
A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, fungos, vírus ou parasitas desenvolvem mecanismos que reduzem ou anulam a ação dos medicamentos utilizados para combatê-los. Como consequência, infecções antes facilmente tratadas podem se tornar mais difíceis de controlar, exigindo terapias mais complexas, mais caras e, em alguns casos, sem opções terapêuticas eficazes.
O fenômeno está diretamente relacionado ao uso inadequado de antibióticos. Quando esses medicamentos são utilizados sem necessidade, em doses incorretas ou por períodos inadequados, os microrganismos mais sensíveis são eliminados, enquanto aqueles que possuem mecanismos de resistência sobrevivem e se multiplicam. Além disso, o uso prolongado pode favorecer o surgimento de mutações que aumentam ainda mais a resistência.
Essa preocupação também alcança a agropecuária. O uso inadequado de antibióticos em animais pode selecionar bactérias resistentes capazes de chegar aos seres humanos por diferentes vias, incluindo alimentos, contato direto com animais e o próprio meio ambiente. “A resistência desenvolvida em um setor pode impactar a saúde de toda a população”, destaca Doi.
O cenário reforça a importância da abordagem One Health, ou Saúde Única, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental. A resistência antimicrobiana pode surgir e circular entre esses três ambientes, tornando indispensável uma atuação integrada de profissionais da saúde, medicina veterinária, produção animal e meio ambiente.
Os impactos da resistência já são observados na prática clínica. Infecções causadas por microrganismos resistentes estão associadas a internações mais longas, aumento dos custos assistenciais e maior risco de mortalidade. Além disso, colocam em risco procedimentos essenciais da medicina moderna, como cirurgias, transplantes, tratamentos oncológicos e terapias intensivas, que dependem da disponibilidade de antimicrobianos eficazes.
Nesse contexto, os laboratórios clínicos desempenham papel estratégico. São eles os responsáveis por identificar os microrganismos causadores das infecções e realizar testes que determinam quais medicamentos permanecem eficazes em cada caso. As informações geradas auxiliam tanto no tratamento individual dos pacientes quanto na vigilância epidemiológica, permitindo detectar novos mecanismos de resistência e acompanhar tendências ao longo do tempo.
O Brasil conta com importantes iniciativas de monitoramento coordenadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Ministério da Saúde e por laboratórios de referência. Apesar dos avanços, especialistas apontam desafios relacionados à ampliação da cobertura da vigilância, à integração de dados entre diferentes setores e ao fortalecimento da capacidade laboratorial em todas as regiões do país.
Para a SBPC/ML, o debate representa uma oportunidade para ampliar a conscientização sobre a resistência antimicrobiana. “O uso consciente de antibióticos, sempre com orientação profissional, o cumprimento correto dos tratamentos prescritos e o fortalecimento das medidas de prevenção de infecções são fundamentais para preservar a eficácia desses medicamentos”, afirma Doi.
O alerta é urgente. Estudos internacionais indicam que, caso medidas efetivas não sejam adotadas, até 2050 as infecções causadas por microrganismos resistentes poderão provocar mais mortes do que o câncer. “Isso representaria um enorme retrocesso para a ciência e para a saúde. O enfrentamento da resistência antimicrobiana é uma responsabilidade compartilhada por governos, profissionais de saúde, produtores, indústria e toda a sociedade”, conclui André Doi.

