Edição Mai-Jun 2026
Junho Lilás reforça a importância do Teste do Pezinho para prevenir sequelas e salvar vidas
O sexto mês do ano é marcado pela campanha Junho Lilás, dedicada à conscientização sobre a importância do Teste do Pezinho, um dos principais exames da triagem neonatal. Realizado preferencialmente entre o terceiro e o quinto dia de vida, possibilita a identificação antecipada de alterações genéticas, metabólicas e infecciosas que, embora não apresentem sinais ao nascimento, podem comprometer o desenvolvimento infantil e até levar ao óbito quando não tratadas a tempo.
Segundo a médica pediatra e patologista clínica Natasha Slhessarenko, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), a principal vantagem da triagem é permitir intervenções antes do surgimento de danos irreversíveis. “O Teste do Pezinho possibilita detectar enfermidades completamente assintomáticas ao nascimento. Quando identificadas precocemente, elas podem ser tratadas antes que causem sequelas permanentes, oferecendo uma nova perspectiva de vida para o bebê”, afirma.
Disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o exame rastreia condições como fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, fibrose cística, anemia falciforme e outras hemoglobinopatias, hiperplasia adrenal congênita, deficiência de biotinidase e toxoplasmose congênita, além de algumas aminoacidopatias. Na rede privada, há versões ampliadas capazes de investigar mais de 50 agravos. “Todas as condições pesquisadas podem ser detectadas antes do aparecimento dos sintomas, o que faz diferença para o desenvolvimento neuropsicomotor, cognitivo e para a qualidade de vida dessas crianças”, explica Natasha Slhessarenko.
Os benefícios da identificação antecipada incluem a prevenção de déficits intelectuais, complicações neurológicas e outros comprometimentos à saúde. No caso do hipotireoidismo congênito, por exemplo, a reposição hormonal iniciada nos primeiros dias de vida evita prejuízos ao desenvolvimento. Já pacientes com fenilcetonúria podem seguir uma alimentação específica capaz de impedir danos neurológicos graves. “Com a confirmação do quadro, as medidas terapêuticas são implementadas mais rapidamente e muitos pacientes conseguem levar uma vida muito próxima da normalidade”, destaca a pediatra.
A triagem neonatal ganhou um importante reforço com a Lei nº 14.154/2021, que prevê a ampliação gradual do número de condições rastreadas pelo SUS. A legislação inclui grupos de distúrbios metabólicos, doenças lisossômicas, imunodeficiências primárias e a amiotrofia muscular espinhal (AME), ampliando significativamente o alcance do programa. No entanto, a implementação ainda avança de forma desigual entre os estados devido a desafios técnicos, logísticos e orçamentários.
Para a especialista membro da SBPC/ML, cada nova condição incorporada representa uma oportunidade de transformar a trajetória de milhares de famílias. “A detecção precoce, associada à intervenção rápida, pode evitar atrasos no desenvolvimento, deficiência intelectual e até mortes prematuras. Em muitos casos, medidas relativamente simples são capazes de mudar completamente a evolução do quadro clínico”, ressalta.
Apesar dos avanços, o acesso ao exame ainda apresenta desigualdades regionais. As maiores coberturas estão concentradas nas regiões Sul e Sudeste, enquanto Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste registram índices menores. Para a patologista clínica, a universalização da triagem neonatal ampliada depende do fortalecimento da infraestrutura laboratorial, da capacitação de profissionais, da logística para transporte das amostras e da busca ativa dos casos suspeitos. “O Teste do Pezinho é uma das estratégias mais eficazes da saúde pública para garantir identificação precoce e cuidado oportuno. Quanto maior o número de condições investigadas, maiores são as chances de oferecer um futuro saudável para essas crianças”, conclui Natasha Slhessarenko.

