Edição Mai-Jun 2026
Diabetes e testes laboratoriais: o que os exames revelam sobre a doença
Celebrado em 26 de junho, o Dia Nacional do Diabetes tem como objetivo conscientizar a população sobre uma das doenças crônicas mais prevalentes no país. Dados do Vigitel 2025, divulgados pelo Ministério da Saúde, mostram que a proporção de adultos brasileiros com diagnóstico da condição cresceu 135% entre 2006 e 2024, passando de 5,5% para 12,9%. No mesmo período, a obesidade aumentou 118%, a hipertensão avançou 31% e o excesso de peso subiu 47%, evidenciando a expansão dos principais fatores de risco associados ao problema de saúde.
Apesar desse cenário, muitas pessoas convivem com a condição sem saber, pois a mesma pode permanecer assintomática durante anos. Por esse motivo, os exames laboratoriais desempenham papel fundamental para o diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado dos pacientes.
Segundo o médico endocrinologista e patologista clínico Pedro Saddi, vice-coordenador do Comitê de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), identificar alterações glicêmicas antes do surgimento das complicações pode mudar completamente a evolução da doença.
"O diabetes possui um longo período assintomático. O diagnóstico precoce por exames laboratoriais permite identificar indivíduos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2 antes do surgimento de complicações como retinopatia, nefropatia e problemas cardiovasculares, possibilitando intervenções precoces e mais eficazes", explica.
Os exames que ajudam a diagnosticar o diabetes
Atualmente, três exames são considerados os principais pilares para o diagnóstico da condição e do pré-diabetes: a glicemia de jejum, a hemoglobina glicada (HbA1c) e o teste de tolerância oral à glicose (TTGO).
A glicemia de jejum mede a concentração de glicose no sangue após um período de jejum entre oito e doze horas. Já a hemoglobina glicada avalia a média da glicemia dos últimos três meses, oferecendo uma visão mais ampla do controle metabólico do paciente.
"O exame de hemoglobina glicada é considerado o padrão-ouro para o monitoramento do diabetes porque reflete o controle glicêmico de longo prazo, independentemente das oscilações provocadas por alimentação ou atividade física realizadas nos dias anteriores ao exame", destaca Pedro Saddi.
O terceiro exame é o teste de tolerância oral à glicose, cujos critérios diagnósticos incluem a dosagem de jejum e uma dosagem adicional, que pode ser no tempo de 60 ou 120 minutos, sendo fundamental para identificar alterações que passam despercebidas pela glicemia de jejum.
De acordo com o especialista, o diagnóstico do diabetes requer dois exames alterados ou a repetição do mesmo exame em uma segunda amostra para confirmação, exceto quando o paciente apresenta sintomas inequívocos de hiperglicemia associados a glicemia aleatória igual ou superior a 200 mg/dL.
Embora amplamente utilizada, a glicemia de jejum nem sempre consegue detectar todos os casos de alteração metabólica. "A glicemia de jejum isolada pode subestimar alguns distúrbios glicêmicos, especialmente aqueles relacionados à glicose após as refeições. Em situações de forte suspeita clínica ou quando existem fatores de risco importantes, exames complementares como a hemoglobina glicada e o teste de tolerância oral à glicose são fundamentais", afirma o endocrinologista.
A explicação está no fato de que algumas pessoas apresentam alterações importantes na resposta do organismo à glicose, mesmo mantendo níveis aparentemente normais durante o jejum.
Fatores que podem interferir nos resultados
Embora sejam ferramentas confiáveis, alguns fatores clínicos podem interferir nos resultados dos exames. "No caso da hemoglobina glicada, condições como anemias, hemoglobinopatias, gravidez, transfusões sanguíneas recentes e uso de eritropoetina podem alterar os resultados. Já na glicemia de jejum e no teste de tolerância oral à glicose, situações como jejum inadequado, infecções, estresse agudo e alguns medicamentos podem influenciar as dosagens", esclarece Pedro Saddi.
Por isso, a interpretação dos exames deve sempre ser realizada por um médico, considerando o contexto clínico de cada paciente. O acompanhamento laboratorial também vai além do controle da glicose, uma vez que a condição pode afetar diferentes órgãos, especialmente rins, olhos, vasos sanguíneos e coração.
"O controle adequado do diabetes depende de uma visão ampla da saúde do paciente. Os exames laboratoriais permitem não apenas acompanhar a glicemia, mas também identificar precocemente complicações que podem comprometer a qualidade de vida e aumentar o risco de eventos graves”, enfatiza o vice-coordenador do Comitê de Endocrinologia da SBPC/ML.
Com que frequência os exames devem ser realizados?
Conforme as recomendações da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), pacientes que apresentam controle adequado da enfermidade devem realizar o exame de hemoglobina glicada, pelo menos, duas vezes ao ano. Já aqueles que estão ajustando o tratamento ou ainda não atingiram as metas terapêuticas devem repetir a avaliação a cada três meses.
Além da hemoglobina glicada, o acompanhamento pode incluir monitorização da glicemia capilar ou por sensores contínuos de glicose, especialmente em pessoas com diabetes tipo 1 ou em uso de insulinoterapia intensiva.
Para o especialista, a principal mensagem é que os exames laboratoriais são aliados indispensáveis tanto na prevenção quanto no tratamento do diabetes. "Muitos indivíduos descobrem o diabetes apenas quando surgem complicações. A realização periódica de exames é uma das estratégias mais eficazes para identificar precocemente alterações metabólicas e evitar danos futuros. Quanto mais cedo o diagnóstico é realizado, maiores são as chances de controlar a doença e prevenir complicações", conclui Pedro Saddi.

