Surto de ciclosporíase reforça importância do diagnóstico laboratorial e da investigação da origem da contaminação
O registro de um surto de ciclosporíase nos Estados Unidos colocou as autoridades de saúde em alerta. O balanço mais recente do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), divulgado em 14 de julho, indica que mais de 3,7 mil pessoas foram afetadas pela infecção intestinal causada pelo parasita Cyclospora cayetanensis. As investigações apontam para uma possível relação entre os casos e o consumo de alface americana (iceberg) produzida no México e fornecida pela empresa Taylor Farms, após relatos de pacientes que consumiram o alimento em unidades da rede Taco Bell.
Em resposta, a empresa anunciou o recall voluntário da alface proveniente da região investigada, enquanto o governo mexicano afirma que ainda não há evidências conclusivas ligando sua produção agrícola ao surto. A investigação segue em andamento e já passou por reavaliações: um teste inicial que indicava a presença do parasita em uma amostra de alface foi posteriormente classificado pela Food and Drug Administration (FDA) como um falso-positivo, mas a recomendação para que os consumidores evitem os produtos recolhidos permanece. O caso reforça a importância da vigilância epidemiológica, da segurança dos alimentos e do diagnóstico precoce de doenças transmitidas por água e alimentos contaminados.
Segundo a médica patologista clínica Prof.ª Dra. Vera Castilho, do Laboratório de Parasitologia Clínica da Divisão do Laboratório Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e associada à Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), um dos principais desafios em situações como essa é identificar rapidamente a origem da contaminação. “Esse tipo de surto costuma gerar grande preocupação entre as autoridades de saúde, principalmente porque é necessário investigar onde está o foco. A interrupção da transmissão depende da identificação de como e onde ela teve início. Enquanto a fonte não é localizada, o parasita pode continuar se disseminando por meio da água, de frutas, verduras e do ambiente”, explica. A profissional reforça que a enfermidade não é transmitida diretamente entre pessoas. "Essa diarreia não transmite de uma pessoa para outra. Ela é transmitida por alimentos e água contaminados, pela via fecal-oral", complementa.
Para a patologista clínica, esse tipo de ocorrência também evidencia fragilidades dos sistemas de vigilância sanitária. "Esse episódio revela uma vulnerabilidade do sistema de vigilância para essas doenças gastrointestinais. Muitas vezes, a vigilância não consegue detectar onde está a contaminação. Enquanto isso não acontece, o surto pode continuar se alastrando", esclarece.
Embora grandes manifestações desse tipo sejam mais raras, a patologista clínica ressalta que a situação exige uma investigação rigorosa. "Estamos diante de um evento fora do padrão, porque esses surtos não devem acontecer. É preciso olhar com mais cuidado para as verduras, as frutas, para a forma de cultivo e a qualidade da água que é utilizada na plantação, pois a contaminação pode ocorrer ainda na plantação", pontua.
Diagnóstico exige exames específicos
A médica explica que a confirmação da ciclosporíase depende de exames específicos, diferentes dos utilizados rotineiramente para outras causas de diarreia. "Quando temos muitos casos, o médico começa investigando se é uma bactéria, um alimento contaminado ou outro agente. Um dos testes mais importantes é o de fezes. No caso da Ciclospora, é necessária uma verificação parasitológica com métodos especiais, que inclui uma coloração específica, a coloração de Kinyoun, para fazer o diagnóstico", destaca.
Vera Castilho acrescenta que o trabalho não termina com a identificação do parasita. "Não basta apenas fazer a coloração. É preciso medir o parasita, porque a Ciclospora é muito parecida com outro protozoário chamado Cryptosporídiumspp. Essa diferenciação é feita com uma régua micrométrica acoplada à ocular do microscópio", esclarece a profissional, pontuando que nem todos os laboratórios realizam esse tipo de análise. "O médico precisa solicitar esse exame específico, no pedido médico, e o paciente deve verificar se o local realiza a coloração necessária para detecção desse parasita", complementa.
Cuidados para prevenção
Entre as principais medidas de prevenção, a profissional recomenda consumir apenas água segura e higienizar adequadamente os alimentos. "Se for viajar para locais onde existe esse tipo de surto, o recomendado é consumir apenas água engarrafada e evitar água de torneira. Frutas e verduras devem ser muito bem lavadas e higienizadas. Se não for possível fazer isso, o ideal é não consumir esses alimentos", orienta. Hábitos simples, como lavar as mãos com água e sabão fazem toda a diferença "Esse hábito reduz significativamente o risco de contaminação por diversos agentes infecciosos", reforça.
Vera Castilho lembra ainda que o Brasil já registrou um surto semelhante. "Tivemos um surto de ciclosporíase em General Salgado, no interior de São Paulo, no ano 2000. Foram aproximadamente 350 casos de diarréia, e conseguimos confirmar a presença do coccídeo Cyclospora em análises realizadas no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Esse episódio mostra como é importante identificar rapidamente a origem da contaminação para interromper a transmissão", finaliza a patologista clínica.

