Edição Set-Out 2026 Publicado em: 15 setembro 2026 | 16:52h

Projeto brasileiro integra ciência e diagnóstico no combate à resistência antimicrobiana

Apresentado no 58º CBPC/ML, ARIES reúne pesquisadores de diferentes áreas para desenvolver novas estratégias de diagnóstico, vigilância e prevenção

A integração entre ciência, diagnóstico laboratorial, inovação e políticas públicas está no centro das ações do ARIES (Antimicrobial Resistance Institute of São Paulo – Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos), centro de pesquisa dedicado ao enfrentamento da resistência aos antimicrobianos.

As iniciativas foram apresentadas nesta terça-feira (15/9), durante o 58º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (CBPC/ML), em Florianópolis, na atividade “ARIES em Ação: Ciência, Inovação e Soluções para a Resistência Antimicrobiana”. A sessão teve como presidente Arnaldo Lopes Colombo, diretor do ARIES, e como palestrante Ana Cristina Gales, vice-diretora do ARIES.

Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o projeto integra a modalidade Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) e reúne pesquisadores de diferentes instituições e áreas do conhecimento. De acordo com Ana Cristina, a proposta é integrar grupos para transformar conhecimento científico em soluções que possam contribuir para o enfrentamento da resistência antimicrobiana. “Todos nós somos pesquisadores muito bem consolidados nas nossas áreas. Mas a gente tem que trabalhar junto para produzir alguma coisa que seja inovadora e disruptiva”, afirmou.

Entre as principais frentes está a construção de um observatório que pretende reunir dados provenientes do Ministério da Saúde, do Gerenciador de Ambiente Laboratorial (GAL), de pesquisas desenvolvidas pelo próprio centro e de instituições parceiras. A iniciativa poderá contribuir para ampliar o conhecimento sobre a circulação de microrganismos resistentes e fortalecer a vigilância.

“A gente está construindo esse grande observatório. Ele tem tanto dado que vem do Ministério da Saúde, que vem do sistema GAL, quanto dados que são gerados no próprio CEPID. Então, isso vai estar tudo dentro de uma plataforma”, explicou Ana Cristina. A expectativa apresentada é que a ferramenta esteja disponível para a comunidade em aproximadamente um ano e meio.

O ARIES ainda desenvolve novas tecnologias, incluindo um sistema de suporte à decisão clínica, um teste diagnóstico baseado em plataforma de microarray e pesquisas que utilizam CRISPR-Cas, tecnologia que permite identificar e manipular sequências específicas de material genético, para detectar mecanismos relacionados à resistência aos carbapenêmicos, importante classe de antibióticos. Outra frente investiga o uso de bacteriófagos (vírus capazes de infectar bactérias) como alternativa biotecnológica ao uso de antibióticos.

As pesquisas seguem o conceito de Saúde Única (One Health), abordagem que considera de forma integrada a saúde humana, animal e ambiental. O centro também estuda a presença de microrganismos resistentes no ambiente e alternativas para reduzir a contaminação de efluentes por antibióticos e outros resíduos.

A educação é outra frente do projeto. Estão em desenvolvimento iniciativas de capacitação de gestores municipais e profissionais da atenção básica, incluindo um curso em parceria com a Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNA-SUS), além de formação em microbiologia com foco em novas tecnologias e resistência antimicrobiana.

Para Arnaldo Lopes Colombo, diretor do ARIES, um dos diferenciais do centro é justamente aproximar pesquisadores de diferentes áreas para ampliar o impacto das pesquisas. “O trabalho de criar um grupo interativo em diferentes áreas de conhecimento tem um impacto muito grande. Isso acaba se propagando, talvez não a curto prazo, mas a gente vai acabar criando essa rede colaborativa. Isso é extremamente importante e é o que temos batalhado nos últimos anos”, destacou Arnaldo. 

Para os pesquisadores, essa integração e o fortalecimento da relação entre pesquisa e prática são caminhos para transformar descobertas científicas em novos diagnósticos, estratégias de prevenção e políticas públicas de enfrentamento à resistência antimicrobiana.