Publicado em: 10 agosto 2026 | 10:57h

Indicadores laboratoriais: quando medir significa transformar

Em duas décadas, iniciativa criada pela SBPC/ML em parceria com a Controllab consolidou uma cultura de qualidade baseada em indicadores e evidências, reunindo cerca de 400 laboratórios participantes.

Há exatos vinte anos, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) deu um passo que, à época, parecia ousado: criar um programa nacional de indicadores laboratoriais de qualidade que permitisse aos laboratórios brasileiros comparar seu desempenho, identificar oportunidades de melhoria e, sobretudo, fortalecer a cultura da qualidade baseada em evidências.
Naquele momento, poucos imaginavam que essa iniciativa, desenvolvida em parceria com a Controllab, se tornaria uma das mais longevas e respeitadas experiências de benchmarking laboratorial do mundo. Hoje, ao celebrarmos duas décadas desse programa, fica evidente que sua maior contribuição vai muito além dos números. Ela está na transformação da forma como os laboratórios enxergam seus próprios processos.
Tive o privilégio de participar dessa história desde o início. Como primeiro Diretor de Acreditação e Qualidade da SBPC/ML, liderei, juntamente com um grupo de colegas patologistas clínicos, a criação do Programa de Indicadores Laboratoriais em 2006. Ver esse projeto amadurecer, conquistar reconhecimento internacional por meio de publicações científicas e reunir cerca de 400 laboratórios participantes é motivo de enorme satisfação profissional e pessoal.
A cerimônia comemorativa, realizada na sede da Associação Paulista de Medicina, simbolizou muito mais do que um aniversário. Representou o reconhecimento de uma trajetória construída de forma colaborativa por sucessivas diretorias da SBPC/ML, pela Controllab e, principalmente, pelos laboratórios brasileiros que acreditaram na importância de medir para melhorar.
A presença de representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), da Anvisa, da Associação Paulista de Medicina e de diversas entidades da saúde demonstrou que a qualidade laboratorial deixou de ser um tema restrito aos laboratórios. Hoje, ela ocupa posição estratégica dentro do sistema de saúde, impactando diretamente a segurança do paciente, a eficiência assistencial e a sustentabilidade das organizações.
Os relatos apresentados por instituições como o Hospital Israelita Albert Einstein, o Laboratório Central do Hospital das Clínicas da USP e o Laboratório SANCET evidenciaram um aspecto que considero essencial: indicadores não existem para produzir relatórios. Eles existem para provocar mudanças. Quando utilizados de forma inteligente, transformam dados em conhecimento, conhecimento em decisões e decisões em melhorias concretas para pacientes e profissionais.
Outro momento particularmente inspirador foi a participação de dois grandes nomes da saúde: o professor Gonzalo Vecina e o professor Vincent De Guire, do Canadá, atual presidente do Grupo de Trabalho sobre Erros Laboratoriais e Segurança do Paciente (Laboratory Errors and Patient Safety – LEPS) da Federação Internacional de Química Clínica (IFCC). Suas apresentações reforçaram que os desafios enfrentados pelos laboratórios brasileiros são compartilhados em todo o mundo e que a cooperação internacional é fundamental para acelerar soluções.
Tenho a honra de representar a SBPC/ML nesse grupo de trabalho da IFCC, ao lado do Dr. Alex Galoro, juntamente com Luiza Bottino, da Controllab. Essa atuação internacional demonstra que o Brasil não apenas acompanha as discussões globais sobre qualidade laboratorial, mas também contribui de forma ativa para sua construção.
O futuro já começou. Atualmente, o LEPS e o Comitê de Point-of-Care Testing (C-POCT) da IFCC trabalham de forma integrada no desenvolvimento de indicadores específicos para testes realizados à beira do leito, iniciando pelos equipamentos de glicemia e gasometria utilizados em ambiente hospitalar. Trata-se de uma iniciativa extremamente relevante, considerando o crescimento exponencial do POCT e a necessidade de garantir que a rapidez desses exames venha acompanhada do mesmo rigor em qualidade e segurança.
Outro projeto igualmente promissor busca promover a harmonização internacional dos indicadores laboratoriais por meio da integração com padrões de interoperabilidade, como LOINC e SNOMED. Essa padronização permitirá maior comparabilidade entre diferentes sistemas de informação, ampliando a capacidade de análise e aprendizado em escala global.
Ao olhar para esses vinte anos, fica uma convicção que o tempo apenas fortaleceu: qualidade não é um destino, mas um processo contínuo. Indicadores não representam um fim em si mesmos; são instrumentos que permitem enxergar oportunidades, corrigir desvios e construir serviços cada vez mais seguros.
Os desafios da medicina laboratorial continuarão evoluindo. Novas tecnologias, inteligência artificial, automação e medicina personalizada exigirão métricas cada vez mais sofisticadas. Mas o princípio permanece o mesmo daquele que inspirou a criação do programa há duas décadas: aquilo que é medido de forma consistente pode ser compreendido. E aquilo que é compreendido pode ser continuamente aprimorado.
Celebrar esses vinte anos é, acima de tudo, renovar o compromisso da SBPC/ML com a excelência, a inovação e, principalmente, com a segurança dos pacientes que dependem diariamente da qualidade do diagnóstico laboratorial.