Edição Jul-Ago 2026 Publicado em: 19 agosto 2026 | 11:00h

5 coisas que você precisa saber sobre a resistência antimicrobiana e o que ela tem a ver com a carne brasileira

A partir de 3 de setembro, o Brasil fica temporariamente fora da lista de países autorizados a exportar carne, ovos, mel e outros produtos de origem animal para a União Europeia. A medida foi oficializada pela Comissão Europeia

Por trás da disputa comercial entre Brasil e Europa, amplamente abordada pela imprensa, está um problema que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já classifica como uma das maiores ameaças à saúde pública global: a resistência antimicrobiana. Dr. André Doi, médico patologista clínico e diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), separou cinco pontos para entender o que está em jogo e o que o laboratório clínico tem a ver com isso.


1. Não é só um problema de hospital
Falar em bactéria resistente costuma trazer à cabeça a imagem de uma infecção pega no hospital. Mas o problema é bem mais amplo do que isso. Quando antimicrobianos são usados de forma inadequada, em pessoas ou em animais, as bactérias mais sensíveis morrem e as resistentes sobrevivem, se multiplicam e circulam por água, solo, alimentos e trabalhadores rurais. É esse raciocínio que sustenta o conceito de Saúde Única (One Health): a ideia de que saúde humana, animal e ambiental formam um mesmo sistema; hoje adotada tanto pela União Europeia quanto pela Organização Mundial de Saúde Animal.

 

2. Nem todo antibiótico funciona para toda bactéria
Um engano comum é achar que, diante de uma infecção bacteriana, qualquer antibiótico resolve. Não é assim. Bactérias diferentes reagem de formas diferentes aos medicamentos, e uma mesma espécie pode desenvolver mecanismos que tornam certos antibióticos ineficazes contra ela. Por isso, o tratamento certo depende de identificar o microrganismo e testar sua sensibilidade aos antimicrobianos disponíveis, algo especialmente importante em infecções graves.

 

3. O laboratório é quem descobre o que ainda funciona
É aqui que entra um trabalho que costuma passar despercebido. Os exames microbiológicos identificam o microrganismo responsável pela infecção e, com os testes de suscetibilidade, mostram como ele responde a diferentes antimicrobianos, informação que orienta a equipe médica na escolha do tratamento.

“O laboratório não está apenas identificando uma bactéria. Ele produz uma informação que pode ser decisiva para a escolha do medicamento mais adequado para aquele paciente”, explica Dr. André Doi, médico patologista clínico e diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML).

Os mesmos dados, quando agregados, também alimentam a vigilância epidemiológica e ajudam a identificar novos padrões de resistência no país. Por isso o trabalho do patologista clínico é tão importante, para além dos laboratórios e hospitais.

 

4. A resistência pode comprometer cirurgias, transplantes e tratamentos contra o câncer
Antimicrobianos eficazes não importam só para quem já está infectado: eles também protegem pacientes em procedimentos complexos, como cirurgias, transplantes e terapias intensivas. Quanto maior a resistência dos microrganismos, mais difícil fica prevenir e tratar infecções nesses casos. A dimensão do problema é grande. Estimativas da OMS dão conta que infecções bacterianas resistentes estiveram associadas a 4,95 milhões de mortes em 2019, das quais 1,27 milhão foram causadas diretamente pela resistência. Sem mudança de rumo, a projeção é de 10 milhões de mortes por ano até 2050 é um patamar comparável ao das mortes globais por câncer hoje.

 

5. O Brasil também tem lição de casa
O país tem estrutura de monitoramento coordenada pela Anvisa e pelo Ministério da Saúde, mas os números mostram espaço para avançar. Na Avaliação Nacional de 2024 (a mais recente), feita com 1.453 hospitais, apenas 52,72% declararam ter um Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos implementado; entre as causas mais citadas para a ausência do programa estão a falta de integração entre farmácia e laboratório e a carência de profissionais capacitados. Para reverter esse quadro, a Anvisa e o Hospital Alemão Oswaldo Cruz conduzem, desde outubro de 2024, o projeto PeGASUS, que já reúne 54 hospitais do SUS de todas as regiões do país; iniciativa que teve seu primeiro simpósio em março de 2025. Em 2025, a agência também publicou uma diretriz específica para o gerenciamento de antimicrobianos em serviços de neonatologia e pediatria.

 

O que cada pessoa pode fazer: tomar antibiótico só com prescrição médica, seguir o tratamento até o fim e não guardar sobras de remédio para a próxima doença, descartando as sobras de volta na farmácia, já fazem diferença. Mas a responsabilidade não para no comportamento individual: diagnóstico correto, vigilância e uso racional de antimicrobianos (na saúde humana e na produção animal) seguem sendo as ferramentas mais concretas para manter esses medicamentos funcionando quando forem realmente necessários.